Clássicos
:: Rio 40 Graus
Publicado em 22/09/2009
Mariana Bonfim, do blog MovieYou
Nelson Pereira dos Santos figura na história do cinema nacional como um dos maiores cineastas de nosso país. Dirigiu mais de 20 filmes, entre eles “Mandacaru Vermelho” (1961), “Vidas secas” (1963), “O Amuleto de Ogum” (1974), “Na Estrada da Vida” (1980), “Memórias do Cárcere” (1984) e “Brasília 18%” (2006), sua obra mais recente. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, fundou a graduação de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 2006 - aliás, foi o primeiro cineasta a alcançar esse feito.
Nelson vem de família italiana, nasceu no bairro do Brás e foi criado no Bixiga, em São Paulo. Mesmo formado em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco, o cinema sempre lhe despertou paixão e interesse. Freqüentava vários cineclubes da cidade. Acabou escolhendo o Rio de Janeiro como lar e foi lá que, após ser assistente de direção dos diretores cariocas Paulo Wanderley e Alex Viany, filmou o seu primeiro longa, “Rio 40 Graus” (1955), considerado precursor do movimento do Cinema Novo no país.
Realidade social
O embrião do Cinema Novo estava na inquietação de alguns cineastas e intelectuais com o fato de que os filmes brasileiros da época não debatiam questões sociais importantes. Além disso, boa parte das produções nacionais estava ligada a tentativas de se elaborar algo glamurizado e hollywoodiano, desvinculado da realidade do país.
Com “Rio 40 Graus”, Nelson fez uma obra que “respondia” a essa inquietação. O longa apresenta personagens de várias classes, que interagem em diversas situações e transmitem uma amostra da realidade social daquele período. A partir daí, as bases do Cinema Novo se alicerçaram nas premissas de que os filmes deveriam ser feitos com baixo orçamento, ideias simples de roteiro, usando poucos recursos fílmicos, mas criativos, e com temática ligada ao subdesenvolvimento.
“Rio 40 Graus” possui uma forte veia documental. O filme apresenta um recorte do cotidiano de vários tipos próprios do Rio de Janeiro em um domingo de sol escaldante. A trama parte de um grupo de crianças moradoras do morro do Cabuçu, que seguem pelos principais pontos turísticos da cidade vendendo amendoins. Aparecem como cenário o Jardim Botânico, a praia de Copacabana, o Aeroporto do Galeão, o estádio do Maracanã, o bondinho do Corcovado e o Cristo Redentor.
À medida que as crianças se dispersam por esses locais, vamos nos encontrando com outras personalidades que se esbarram pelo dia-a-dia carioca: bons vivants, guardas, marinheiros, aeromoças, apostadores, torcedores, jogadores, cartolas, fotógrafos, repórteres, políticos, sambistas, gringos, turistas.
O interessante é notar que, apesar de a obra ter mais de 50 anos e ser contextualizada por expressões, hábitos, costumes e figurinos usuais na época, a câmera consegue transmitir conflitos que continuam presentes em nosso cotidiano, seja pela universalidade da situação – como a moça que fica grávida e precisa de uma figura paterna para cuidar do seu filho -, seja pela incapacidade do tempo em transformar um erro em acerto - como na situação dos cartolas que dominam o passe de jogadores, tratados como mera mercadoria futebolística.
No final das contas, assistir a ”Rio 40 Graus” transmite a sensação de que revisitamos o passado de nosso país, vislumbrando erros que nossa sociedade ainda não conseguiu corrigir.

























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