Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
Caos no Audiovisual
Publicado em 02/10/2009
Às vésperas da estreia de “No Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais“, em abril de 2009, conversamos com o produtor Matias Mariani e os roteiristas e diretores do programa Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic.
Por Tayla Tzirulnik
Revista BETA
Procurado pelo canal Futura para produzir conteúdo, o diretor Cao Hamburger propôs um programa, voltado ao público jovem, que debatesse o audiovisual. A ideia original girava em torno de entrevistas que discutissem o passado, o presente e o futuro de um assunto tão amplo. “Cao pensou esse formato sozinho e o apresentou à Futura. Eles se interessaram e decidiram fazer. Foi então que ele me procurou para uma coprodução, já que estaria ocupado com outros projetos e era necessário um produtor responsável para o programa, assim como diretores dedicados tanto a afinar o conceito, quanto a tocar o dia a dia”, conta Matias Mariani da Primo Filmes.
Os primeiros nomes que surgiram para dirigir o projeto foram de dois jovens diretores da produtora O2, amigos de Mariani. Sem experiência ou know-how com produtos televisivos, Paulinho Caruso e Luis Carone (que dirigiu apenas o piloto) chamaram o amigo e roteirista Teodoro Poppovic (diretor do extinto programa “Então Tá, Vamos Falar de Música”, e roteirista do “15 Minutos”, ambos exibidos pela MTV) para se unir ao grupo.
Juntos, os três decidiram por um formato que fosse além das entrevistas, adicionando material de arquivo e esquetes metalinguísticas, o que resultou num formato orgânico e divertido: discute-se o audiovisual por meio do audiovisual.
“Não tínhamos noção do tamanho do perigo”
O número de episódios, decididos com base em uma negociação entre produtora e transmissora, acabou estipulado em 15, abrangendo os mais variados segmentos do audiovisual: o real, a verdade, a ficção, o documentário, os reality shows, a experimentação, a interatividade… “Pensamos quais são as discussões que valem a pena, que interessam tanto aos leigos quanto aos profissionais…”, explica Paulinho Caruso.
Apesar de não dedicarem nenhum espaço aos profissionais envolvidos na realização de uma obra audiovisual, os diretores fizeram uma exceção em um único episódio, que prestigiará o montador. “A montagem é a única função exclusiva da sétima arte, só existe no cinema. E é importante, merece ser discutida”, pontua Caruso. Um dos últimos episódios gira em torno da reciclagem audiovisual, ou seja, a realização de uma obra sem produzir uma imagem, “sem pegar na câmera”.
Narrado pelo próprio Poppovic e utilizando suportes como HD, VHS, miniDV, DV, PD, câmeras de segurança, super-8 e até mesmo película (16mm, para o piloto), o programa tem como uma das metas discutir por que a produção do audiovisual cresce e se democratiza cada vez mais. “Todo mundo vê e produz imagem, sempre foi assim. Acontece que se tornou mais acessível e comum. Com internet, YouTube, televisão, videogame, já temos material suficiente produzido para discutir. O audiovisual é mais uma ferramenta para o ser humano se entender e se representar. Hoje em dia, todo mundo produz audiovisual”, conclui Poppovic.
Os primeiros episódios discutem a realidade e suas formas de representação, por meio de entrevistas com profissionais como Eduardo Coutinho (documentarista e diretor de “Edifício Master” e “Jogo de Cena”), José Padilha (“Ônibus 174″ e “Tropa de Elite”) e um anônimo blogueiro “gringo”.
O narrador conduz, os entrevistados discutem e os esquetes aliviam
A estrutura está pautada em quatro pilares: o conteúdo dos entrevistados, o narrador que traça relações (não necessariamente verdadeiras), a apresentadora que dialoga com o espectador e os esquetes que exemplificam e divertem. “A grande questão era manter o conteúdo, sem perder o espectador. Se você estiver realmente interessado em conteúdo puro, vai ler um livro, assistir a um documentário específico ou a uma palestra, e não a um programa de TV. Os esquetes estão lá pra contrabalancear. E, por fim, tem a apresentadora, a atriz Maria Laura Nogueira”, explica Paulinho.
A presença de um apresentador foi uma imposição de Cao Hamburger e do próprio Futura aos diretores. O projeto foi inicialmente pensado apenas com o narrador, mas, dada as regras, acabou-se incorporando o profissional. “Quando surgiu o desafio de ter uma apresentadora num programa que não estava desenhado para isso, não queríamos uma VJ da MTV, nem ninguém que fosse muito descolado, queríamos uma atriz de verdade. E aí surgiu a Laura, que é ótima”, elogia Caruso. “Queríamos alguém que fosse capaz de brincar justamente com a necessidade de se ter um apresentador e, para isso, tinha que ser uma atriz que conseguisse desconstruir a imagem de apresentadora”, completa Poppovic.
A lista de entrevistados impressiona e engloba personalidades como os diretores Arlindo Machado, Fernando Meirelles e Michel Gondry; o escritor e roteirista Marçal Aquino e o colega Fernando Bonassi; Washington Olivetto, Solange Farkas, Zita Carvalhosa, Paulo Sacramento, Bill Pullman, Caco Barcelos… “Conversamos com caras que veneramos, verdadeiros mitos, pessoas que gostamos muito do trabalho e também pessoas que não conhecíamos, que estão começando agora. Temos depoimentos sensacionais e outros nem tanto. A ideia é dessacralizar. Não fizemos juízo de valores com os nossos convidados. Recebemos teóricos, porque é importante para o programa, mas também conversamos com moleques de 15 anos que fazem vídeos com o celular e nunca pensaram sobre aquilo. Todo mundo pode falar sobre o audiovisual, assim como todo mundo pode falar sobre música”, explica Poppovic. “
O programa nasceu do interesse do Cao em discutir a profissão dele, e acho que isso veio pra gente também, esse conceito ficou muito claro para todos nós. O que curtimos é o momento de reflexão dentro do nosso dia, sobre nossa profissão. Acho que isso é o mais bacana”, conclui Matias.
A seguir, um vídeo de divulgação do programa:
(Esta matéria foi publicada, originalmente, na Revista PLANO B/Beta nº 03.)
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