Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
Homens de Cinema
:: Amir Labaki
Publicado em 14/10/2009
Por Tayla Tzirulnik
Revista BETA
“Nunca imaginei ser crítico de cinema.
Cursei três anos de Medicina e fui fazer Cinema.
Queria ser roteirista.”
Leia, a seguir, uma entrevista concedida pelo crítico de cinema Amir Labaki à reportagem da Revista BETA.
Qual foi sua primeira crítica publicada?
Meu primeiro ensaio sobre cinema saiu no caderno “Folhetim” da Folha de S.Paulo, em 1986. Nele, eu discutia a obra de Michael Cimino e fui honrado com comentários elogiosos de Paulo Francis em duas colunas sucessivas na “Ilustrada”. Minha primeira resenha, “Anjos do Arrabalde”, de Carlos Reichenbach, saiu na Folha em 1987.
Qual crítico chamava sua atenção?
Edmar Pereira, em São Paulo, e Sérgio Augusto, no Rio, foram os primeiros críticos em atividade cujos textos me chamaram a atenção. De fora, Pauline Kael, do The New Yorker, Vincent Canby, então titular do The New York Times, e o francês Serge Daney, da revista Cahiers du Cinema e do Liberátion, foram essenciais, pelo fato de raramente concordarem, terem abordagens cinematográficas distintas e por serem os três grandes estilistas de pegadas muitos diferentes. Paulo Emílio e Almeida Salles também me chamaram a atenção, assim como Moniz Vianna. A inteligência e o método de André Bazin ainda são impressionantes. James Agee é sempre brilhante, concordasse ou não com ele. Dwight MacDonald separava como ninguém o joio do trigo e funcionava tanto em resenhas breves quanto em ensaios, o que não é a regra.
Como entrou na profissão?
Trabalhava como editorialista de política e política internacional da Folha. Aos poucos, comecei a escrever sobre política e literatura. Em 1987, o diretor de redação do jornal, Otavio Frias Filho, me convidou a trocar os editoriais pela crítica de cinema. Fiquei na redação até 1990, tornei-me articulista naquele ano, focando cada vez mais na cobertura internacional de festivais, e fui correspondente da “Ilustrada” em Nova York, em 1998. Até hoje sou articulista da Folha e, desde 2002, assino uma coluna sobre documentários e cinema no caderno “EU & Fim de Semana” do diário Valor Econômico.
Acha importante o conhecimento técnico do cinema?
Trabalhei por um ano e meio em cinema publicitário. Fui assistente de produção, produtor e responsável por efeitos especiais. Ganhei um bom dinheiro, conheci uma boa turma, mas achei um tédio só, mas conhecer um pouco da “cozinha” cinematográfica me parece, sim, útil para o trabalho de crítico.
Quais as limitações de uma crítica publicada em jornal?
Acho que há mais pontos positivos do que negativos em escrever para a chamada grande imprensa. Nunca tive qualquer problema de interferência de editor em meu texto. Passada a fase inicial de disponibilidade quase absoluta do jovem crítico, no sentido de ter de resenhar o que lhe fosse pautado, com o correr do tempo cada vez mais é possível escolher sobre qual filme interessa-lhe escrever.
A internet é mais libertadora?
Você tem todo o espaço do mundo, escreve e publica tantos textos quantos são os filmes e assuntos que lhe interessam, mas o alcance é muito mais restrito e inexiste a legitimação institucional do jornal/revista, e mesmo a chancela dos grandes portais ainda me parece muito tênue. Há exceções, claro, como revistas de cinema exclusivas na internet, como a Sense of Cinema ou as nacionais Contracampo, Cinética e Cinequanon, publicações online muito superiores à média das publicações impressas sobre cinema.
O que acha dos novos críticos na internet?
Não há tantos assim. Não se pode confundir o trabalho do crítico com o do blogueiro interessado em cinema que posta suas impressões, como o curioso que mantém um fanzine virtual ou o fã que tecla obsessivamente suas reações.
Qual a importância da crítica cinematográfica?
Em seu auge, a crítica é uma arte autônoma expressando um tipo específico de escritor denominado crítico de cinema. Por meio de uma reflexão informada e especializada, o crítico convida o público para um diálogo sobre uma determinada obra. A crítica que me interessa apresenta uma visão específica sobre uma obra de forma que me auxilie a descobrir minha própria visão, seja ela coincidente ou não com a do crítico. Para o mercado, o crítico é um “zé-ninguém” que, na melhor das hipóteses, pode produzir uma linha para o anúncio de um filme e, na pior, verá seu texto embrulhando peixe no dia seguinte. O mercado contemporâneo tem uma visão meramente utilitária da critica.
Como anda a crítica cinematográfica hoje?
Acho que vai bem. O DVD e a internet auxiliaram enormemente a difusão mais ampla da cultura cinematográfica. Filmes, informações e reflexões ficaram muito mais acessíveis. O crescimento dos cursos universitários de cinema também contribuiu para sofisticar a formação. Grandes críticos são raríssimos, em toda área, a qualquer tempo.
Acha que o marketing, de alguma maneira, substitui ou atrapalha o papel do crítico em relação ao público?
Essa substituição é a utopia dos distribuidores. O que atrapalha o crítico é ter seu espaço reduzido por editores fracos que privilegiam releases escritos pela própria redação em vez de textos reflexivos. É dar mais espaço ao junket com o astro de um filme ruim do que à resenha que revela as falhas dessa produção. O distribuidor está fazendo o trabalho dele: divulgar seu produto com o objetivo de obter a maior arrecadação possível. Seu compromisso não é com a crítica. Nem com a história do cinema. Nem com o público. Seu compromisso é com seus sócios e acionistas.
O crítico brasileiro é mais “suave” com a produção nacional?
A complacência nacionalista é talvez a maior fragilidade da crítica cinematográfica brasileira. Em geral, é motivada por ignorância, paternalismo ou simples medo. Se o crítico é fraco, suas fraquezas saltam aos olhos ao se defrontar com um filme brasileiro; em geral, se lhe falta repertório ou mesmo talento, é mais fácil elogiar o filme nacional. Criticar negativamente é difícil e exige uma bagagem muito mais sólida. Outros são paternalistas: escrevem como se o cinema brasileiro sempre precisasse de uma “força” e que caberia ao crítico dar sua “colaboração”. Por fim, há os que “pegam leve” com o filme brasileiro pelo temor do confronto; o diretor ou o produtor de uma obra criticada pode cruzar o caminho do crítico e vir tomar-lhe satisfações. Como precaução, elogia-se. Nos três casos, a crítica comete suicídio e o cinema brasileiro perde muito com isso.
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(Esta matéria foi publicada, originalmente, na Revista PLANO B/BETA nº 03.)
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