Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
Homens de Cinema
:: Sérgio Rizzo
Publicado em 14/10/2009
Por Tayla Tzirulnik
Revista BETA
Crítico desde os 16 anos, quando publicava resenhas em um jornal regional, Sérgio Rizzo cursou Jornalismo e hoje escreve para a Folha e termina o doutorado em Cinema na ECA-USP. Com distintas referências, de Ruben Biáfora, Inácio Araújo e Rubens Ewald Filho, Rizzo destaca Ismail Xavier e Jean-Claude Bernadet como os críticos mais influentes em sua carreira. Para ele, cinema e crítica são artes distintas: “Algumas pessoas estão entre as melhores do mundo para fazer filmes e não estão entre as melhores do mundo para falar sobre eles, e vice-versa”.
A seguir, trechos da entrevista concedida por Sérgio Rizzo.
Quais as limitações encontradas num veículo como o jornal?
Um jornal atende os interesses do leitor. Quantas páginas por dia aquele caderno de cultura tem para falar de tudo que acontece numa cidade como São Paulo? Alguém escolhe que algumas coisas entrem e quatrocentas mil não, existe uma política de negociação. Com a internet criou-se um escoadouro: não cabe no jornal, vai para a internet.
Você tem blog?
Entrei de carona no blog da “Ilustrada”. Vejo colegas que estão absolutamente enlouquecidos porque entraram nessa coisa do blog. Eu adoro escrever, mas não sou tão fanático assim, preciso ser remunerado.
Qual a importância da crítica para o mercado e para o público?
Depende do lugar e do momento. O público é levado a ver o filme por algo que não passa pelo circuito da crítica, nem mesmo pela crítica de reverberação. Não determinamos a carreira de um filme, nem para o bem, nem para o mal. É escasso o número de pessoas interessadas em críticas. O que existe é um público vasto de consumidores de informação. Num país como o Brasil, com os índices de leitura que tem, qual é a capacidade de reflexão do espectador médio? A crítica tem importância? Tem, mas é de varejo.
O que acha do espaço que o marketing ocupa hoje?
Ocupa bastante espaço, mas de publicidade, não editorial. Nenhum editor diz “eu vou dar espaço para isso, porque a Globo Filmes está pagando uma página”. Não em uma imprensa minimamente séria. O que podemos dizer é que hoje se vive muito mais no reino das ações de marketing e, às vezes, essas ações criam conceitos para o filme.
O que te motiva a escrever uma crítica?
O barato é ver filmes e ser pago para isso. Vou ao cinema, é meu trabalho, não me recrimine. Gosto muito de escrever e o faço desde moleque, me sai fácil e tenho prazer. Mas não tenho prazer em escrever se ninguém vai ler, texto é uma conversa. Espero que o sujeito do outro lado leia o texto que escrevi e diga: “Deixa eu ver o que esse cara aqui escreveu”.
Quanto às críticas ao filme nacional, existe um “passar a mão na cabeça”?
É tratado de maneira diferente. Mas o francês é tratado de maneira diferente pela imprensa francesa, o inglês é tratado diferente pela imprensa inglesa, etc. Quando um produto está inserido em nossa cultura, tratamos de um jeito diferente, por “n” razões. Tem gente que se sente mais à vontade para ser maldoso ou mesmo injusto, quando existe um distanciamento. Quando o sujeito é o Arnaldo Jabor, Carlos Diegues ou Bruno Barreto, que mora lá na Alameda Lorena, aí já se fica mais esperto, não é? Se o sujeito escreve uma crítica porca e o alvo da crítica escreve um artigo para o mesmo lugar dois dias depois, você acaba pensando 18 vezes antes de escrever.
Os críticos dialogam entre si?
Procuro não conversar com ninguém antes de escrever. O que acontece, no entanto, depois de terminada uma cabine (sessão gratuita de um filme para a imprensa), é a formação de rodinhas para discutir o filme. Qualquer pessoa que entenda minimamente de psicologia comportamental sabe que ali se inicia um ajuste. Não que as pessoas comecem a pensar a mesma coisa, mas elas começam a pensar sobre as mesmas coisas. A crítica não serve se gira em torno de uma mesma perspectiva.
Como você vê a abordagem da violência e da pobreza, temáticas recorrentes no cinema nacional?
Se fossem feitos em demasia, já teríamos compreendido porque o Brasil é um país violento e desigual. É claro que em São Paulo alguém tem que fazer um filme sobre o PCC. Este é um país violento, onde talvez eu leve um tiro ao voltar para casa. Num país onde isso é passível de ocorrer, não se pode negar a violência. Tem que estar presente no cinema, sim, mas nesse país acontecem outras coisas que não estão nos filmes. Precisamos de uma política cinematográfica preocupada com esses outros nichos.
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(Esta matéria foi publicada, originalmente, na Revista PLANO B/BETA nº 03.)
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