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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

Tudo é Brasil :: Novos Voos

Publicado em 10/11/2009

 

O filme Besouro, que marca a estreia do carioca João Daniel Tikhomiroff, é inspirado na história de um capoeirista que viveu no Recôncavo Baiano na década de 1920. Tem como principal referência o livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho e é classificado pelo diretor como uma ficção, mesmo tratando-se de um personagem real. Tanto o filme quanto o livro parecem ter um objetivo comum: resgatar a história pós-abolicionista do país, quando os afrodescendentes ainda viviam sob regime de escravidão mesmo com a Lei Áurea assinada e, como defesa, criaram a capoeira. “O besouro é um inseto que, por suas características, não deveria voar, mas voa”, explica o diretor, dando a dica sobre as habilidades do personagem que dá nome à obra.

O diretor percebeu no livro um ótimo argumento, uma grande oportunidade para realizar seu primeiro longa-metragem. Para alcançar esse objetivo, Tikhomiroff, que comanda a produtora Mixer e é um premiado diretor de publicidade – “atrasei muito a minha entrada no cinema” –, cercou-se de uma equipe “de primeira linha”. O orçamento do filme extrapolou os R$ 10 milhões e contou, por exemplo, com os mesmos profissionais que coordenaram as cenas de ação em Kill Bill v. 1 e 2, O Tigre e o Dragão e Matrix. A reportagem da BETA conversou com Tikhomiroff  para descobrir as nuances desse novo voo de sua carreira.

Por Thiago Iacocca
Revista BETA


O filme Besouro, que marca a estreia do carioca João Daniel Tikhomiroff, é inspirado na história de um capoeirista que viveu no Recôncavo Baiano na década de 1920. Tem como principal referência o livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho e é classificado pelo diretor como uma ficção, mesmo tratando-se de um personagem real. Tanto o filme quanto o livro parecem ter um objetivo comum: resgatar a história pós-abolicionista do país, quando os afrodescendentes ainda viviam sob regime de escravidão mesmo com a Lei Áurea assinada e, como defesa, criaram a capoeira. “O besouro é um inseto que, por suas características, não deveria voar, mas voa”, explica o diretor, dando a dica sobre as habilidades do personagem que dá nome à obra.

O diretor percebeu no livro um ótimo argumento, uma grande oportunidade para realizar seu primeiro longa-metragem. Para alcançar esse objetivo, Tikhomiroff, que comanda a produtora Mixer e é um premiado diretor de publicidade – “atrasei muito a minha entrada no cinema” –, cercou-se de uma equipe “de primeira linha”. O orçamento do filme extrapolou os R$ 10 milhões e contou, por exemplo, com os mesmos profissionais que coordenaram as cenas de ação em Kill Bill v. 1 e 2, O Tigre e o Dragão e Matrix. A reportagem da BETA conversou com Tikhomiroff  para descobrir as nuances desse novo voo de sua carreira.

TRATAMENTOS

“Quando vi o título do livro Feijoada no Paraíso, achei muito curioso. Li a orelha e vi que era uma obra inspirada em um capoeirista da década de 1920, chamado Besouro. O livro era muito fácil de ler e me encantei com o personagem. Um personagem quase ficcional que foi retratado através de coisas que se diziam dele, até porque existiam muito poucos documentos históricos, mas as lendas eram fascinantes e uma frase que me encantou era dita quando a polícia chegava e perguntava: “cadê o negro?”. E o povo respondia: “ele virou besouro e saiu voando”. Então eu usei o livro como ponto de partida para escrever um roteiro criando outros personagens, ou seja, é uma obra de ficção inspirada, mas não baseada no livro. Na época, eu convidei o Bráulio Tavares e durante um ano trabalhamos juntos no roteiro, escrevendo a quatro mãos, mas em um determinado estágio eu resolvi mudar de roteirista, apesar de Bráulio ter sido ótimo, mas era preciso mudar de olhar, por isso convidei a Patrícia Andrade (corroteirista de Dois Filhos de Francisco) e ela trabalhou comigo mais um ano. Depois eu ainda reescrevi em cima do último tratamento. É um roteiro da Patrícia, com uma participação ativa do Bráulio e, obviamente, minha também.”

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BRASIL

“O filme ajuda a resgatar uma página da nossa história – mesmo que ela seja recriada ficcionalmente –, já que revisita os anos 1920 no interior do Brasil. No caso, no interior da Bahia, especialmente na região do Recôncavo, onde a história se passa, apesar de eu ter filmado em locações diversas pelo estado. Enfim, o filme traz à tona essa página meio turva de nossa história, pós-abolição da escravatura, mas que, anos depois, ainda vigorava. Os negros continuavam a ser tratados como escravos. Então eu adorei o fato de meu personagem ser uma espécie de líder nesse cenário, que entra em confronto com o poder da época, usando a arma que ele tinha: a sua capoeira. E sua relação com o misticismo, que é algo muito bonito, intenso, e onde o personagem real também transitou segundo as pesquisas realizadas, era diretamente ligado ao candomblé. Assim, os orixás, que eram deuses da natureza, começaram a dar força ao Besouro e ele acreditava que tinha o corpo fechado e que nada o atingiria. Tudo isso dá ao filme um tom entre a magia e a realidade. As cenas de ação também reforçam isso, já que criam um visual pouco comum nos filmes nacionais. A capoeira que eu uso no filme é a mais cinematográfica possível.”

ELENCO

“Como o personagem era um jovem de 20 anos, um capoeirista, seria fundamental que ele jogasse capoeira de verdade. Do contrário teria que usar dublês o tempo todo e ficaria aquela montagem com muitos cortes, que não daria muita credibilidade às cenas, e eu queria que o filme tivesse uma câmera muito participativa, uma câmera que fosse quase protagonista e não só contemplativa. O filme não é carregado de diálogos, ele é muito visual e possui uma narrativa de trilha sonora muito interessante. Com isso, eu precisava realmente de um capoeirista e não de um ator, mas alguém que vivenciasse um personagem. Para alcançar isso, nada melhor que convocar a Fátima Toledo, que cuidou da preparação de atores do longa. Foram seis meses de laboratório. A gente se deu muito bem, foi uma relação quase visceral.”

AÇÃO

“Minha proposta foi não entregar o diálogo para os atores. Eu escrevi diálogos sinalizadores, pois eu queria que eles interpretassem do jeito deles. Trabalhando com não atores ficaria mais autêntico e natural. Não existia o improviso, porque eles não tinham o texto previamente.”

EQUIPE

“A vinda da equipe chinesa de coordenação de cenas de ação, capitaneada pelo Deedee (Ju Huen Chiu), é um exemplo do porquê a produção exigia essa verba elevada. Seu grupo faz parte do primeiro time de cenas de ação no mundo. Eu achei que era preciso ter uma pessoa com essa experiência, pois é uma área em que o Brasil não tem tradição. Além disso, toda a equipe é de primeira linha. O diretor de arte é o Cláudio Amaral Peixoto, um dos melhores do país. Ele trabalhou com a figurinista, a Bia Salgado, e com o Martin Macias Trujillo, que é um gênio da maquiagem. Todos trabalharam meses em conjunto. O montador é o Gustavo Giani (ler entrevista), que é uma pessoa que se dedicou muito, que ainda na fase de roteiro já estava discutindo a estética, a maneira de contar essa história, mas todos colaboraram muito.”

PRÓXIMOS VOOS

“No momento eu sou produtor do longa dirigido pelo Vicente Amorim baseado no livro Corações Sujos do escritor Fernando Morais, que é um projeto sensacional. Além disso, estou estudando o projeto do próximo longa.”

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(Esta matéria foi publicada, originalmente, na Revista BETA nº 04.)

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