Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
Narrativa livre para um filme experimental
Publicado em 21/12/2009
Era outono e fazia frio na cidade de São Paulo. Ali, próximo à praça Roosevelt, funciona a Mercúrio Produções que, naquela tarde, serviu de ponto de encontro para a entrevista com a atriz e cineasta Helena Ignez, sobre seu primeiro longa-metragem, Canção de Baal.
Dona de um dos principais rostos do Cinema Novo e figura importante para o Cinema Marginal, Helena imprimiu seu nome nos créditos de filmes clássicos como Assalto ao Trem Pagador (1962) e O Bandido da Luz Vermelha (1968).
Seu mais recente trabalho é livremente inspirado em “Baal”, primeira peça escrita pelo alemão Bertolt Brecht. Elenco e equipe usaram como cenário uma fazenda na cidade de Bragança Paulista, entre agosto e novembro de 2006. O filme estreou no Festival de Cinema do Rio, foi exibido na Mostra de São Paulo, na Mostra de Tiradentes e no Festival de Cannes em 2009.
Canção de Baal tem narrativa solta, não linear. A seguir, os principais trechos da entrevista cedida por Helena Ignez e por André Guerreiro Lopez, ator e diretor de teatro que, em Canção de Baal, estreou na direção de fotografia de longa-metragem.
Machismo escancarado e Brecht subversivo
Helena: O que me impressionou em “Baal” foi o humor e a ironia com que Brecht expunha o machismo do personagem. Eu sintetizei a peça na relação dele com as mulheres porque elas fazem parte desse jogo. O filme também tem um caráter político. No começo, há o interrogatório ao qual Brecht foi submetido durante o Macartismo.
Einstein passeia pelo Brasil
Helena: O Einstein que aparece no filme é aquela figura popular que se tornou conhecida por todos. As falas usadas foram extraídas do livro “A vinda de Einstein ao Brasil” (escrito por Aguinaldo Prandini Riciere), cujo centro é uma entrevista cedida a um repórter brasileiro, na qual o físico fala sobre assuntos diversos, como a maquiagem das mulheres, o futebol e a Teoria da Relatividade.
Os atores e a fotografia digital
Helena: Eu e o André partimos de um conceito absolutamente idêntico para a fotografia do filme, o que queríamos era uma coisa só.
André: Apesar do tom de improvisação, havia um rigor técnico muito grande. Não era questão de ligar a câmera e sair fazendo qualquer coisa, mas de realmente entender o que se queria de cada cena. Já filmei muita peça e não há nada pior que teatro filmado. Por isso, queria que a câmera fosse inquieta e buscasse sempre o melhor ângulo de visão, para se entender o que estava acontecendo.
Corpos nus sem apelo sexual
Helena: Brecht pede que os personagens estejam nus, tanto que a peça causou um escândalo enorme quando estreou em 1923, na Alemanha. No filme, não se pode dizer que é uma nudez erótica, que induz a um tipo de comportamento sexual. No entanto, é nudez mesmo.
O momento da criação e as obrigações do set
Helena: Vejo que em uma produção convencional se pode dirigir um filme totalmente sentada, em frente ao video assist. E se você atravessa para fazer algo diferente é desastroso, causa uma insegurança total nas pessoas. Hoje, o set é mais um lugar de obrigações bem realizadas do que de prazer de criação. Em Canção de Baal tive uma experiência muito oposta a essa.
André: O plano era fazer aquele filme. Se víssemos um pôr do sol lindo lá fora, pensávamos que cena poderia se adaptar a isso. Era a sensação de estar criando que unia aquelas pessoas naquele momento. Havia uma extrema liberdade no set, mas com uma condução muito precisa, para que as exigências profissionais fossem todas cumpridas.

























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