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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

“Salve Geral”: O dia em que São Paulo parou

Publicado em 02/02/2010

Por Alexandre Carvalho dos Santos – Revista BETA

Maio de 2006. Começou com a aparente normalidade de uma tarde qualquer. Eu e o fotógrafo Alexandre Martins Xavier chegávamos a um dos prédios de escritório da Berrini com a tarefa de entrevistar o diretor da Rain sobre cinema digital.

A tensão chegava pelas notícias. O PCC – Primeiro Comando da Capital – prometera dar continuidade aos ataques aleatórios à cidade. Ninguém sabia quando, e se, a onda terminaria.

Fim da entrevista, o trânsito era o cenário apocalíptico dessas megaproduções de fim dos tempos. As escolas liberaram os alunos, as empresas dispensaram seus funcionários, todos, ao mesmo tempo, se apressavam rumo ao lar.

Não fomos os únicos a guardar na memória o que pensamos e como reagimos aos eventos ocorridos naquele período conturbado. O cineasta Sergio Rezende teve um prejuízo direto relacionado aos ataques, do qual não se esqueceu: “Era Dia das Mães e seria veiculada uma matéria no Fantástico promovendo o meu filme Zuzu Angel, mas a reportagem acabou perdendo o espaço para as notícias dos ataques do PCC”.

Apenas quatro meses depois viria o estalo para que o diretor transformasse os eventos daquele maio de 2006 em filme. Com o argumento na cabeça, o cineasta procurou o produtor Joaquim Vaz de Carvalho, dando início aos trabalhos de Salve Geral.

Ficção acima do real

Rezende quis manter uma linha na qual é especialista: a de construir uma ficção que se desenvolve sobre a base do fato histórico. Um exemplo é a cena em que o personagem Xizão coloca fogo em uma loja de vestidos de noiva. Na informação que serviu de base para essa passagem do roteiro o criminoso incendiava uma agência bancária.

Mulheres em primeiríssimo plano

A escolha de Patrícia Andrade para dividir a autoria do roteiro com o diretor não foi gratuita. O trabalho de pesquisa era grande, e Patrícia trabalhava como jornalista até entrar para o mundo do cinema. Sergio também procurava um olhar feminino que o ajudasse na composição da personagem principal, interpretada por Andréa Beltrão. “Enquanto seus homens estavam presos, com limitações, as mulheres acabaram tomando as rédeas em uma série de situações”, destaca Sergio.

Denise Weinberg, no papel da Ruiva, faz a outra mulher forte do filme, uma advogada de membros do Partido que tem função central na coordenação dos ataques.

Segurança ilusória

Mais do que servir como registro de um fato histórico do passado recente, Salve Geral pretende abrir espaço para uma reflexão sobre o quanto o cidadão das capitais brasileiras vive uma segurança ilusória. “Maio de 2006 foi revelador de como o Estado não tem controle sobre as ruas”.

O que se vê de organização no filme vem de dentro dos presídios. Tendo de enfrentar o total desrespeito do Estado, que transforma sistemas de detenção em depósitos superlotados de presos, os criminosos geram movimentos que estabelecem seus próprios padrões e normas de comportamento, visando à sobrevivência – e, claro, ao confronto com quem lhe impõe condições absurdas.

Seu melhor filme

“Acho que é o melhor filme que já fiz. Do roteiro à direção, trabalhei acreditando num cinema narrativo. Acabei no cinema porque escrevia e tinha interesse em contar histórias, sempre com o objetivo de dialogar com o maior número possível de pessoas. E acho que Salve Geral cumpre esse propósito.”

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