Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
Eles não usam black-tie
Publicado em 23/02/2010
Por Gabriel Campos – Revista BETA
Do senso comum aos sábios de plantão a opinião é mais ou menos geral: vivemos em tempos de crise. Mas, não por acaso, a crise de que mais se fala no momento é a financeira. Para uns trata-se de um problema de gestão, para outros é a estrutura de um modelo de civilização que está em xeque.
Quando o assunto é dinheiro, todos têm sua receita: o velho de sabedoria milenar diz que é preciso transportar um punhado de terra para se fazer uma montanha, o vadio afirma que malandros mesmo são o dono da sauna que ganha dinheiro com o suor dos outros e o padre que prega que Deus ajuda quem cedo madruga.
Enquanto isso, a dona de casa escolhe o feijão e o trabalhador trabalha. A luta de classes voltou à ordem do dia na discussão entre engravatados e a turma da canhota, e palavras como ideologia e indústria cultural voltam a aparecer.
A causa da palavra e a palavra da causa
Diante desses novos ventos que sopram no mundo mundano toda arte deve estar afinada com seu tempo histórico e deve reordenar aquilo que a aparente realidade deslocou. Não é diferente com o cinema. Leon Hirszman pertence ao time dos cineastas precupados com seu tempo e com seu povo. Antes que o leitor apressado diga que o discurso escrito é ultrapassado e panfletário, basta ir às locadoras especializadas e alugar a caixa com as obras de Leon.
Eles Não Usam Black-tie traz para o teatro brasileiro o conflito entre campos sociais antagônicos e, no caso do filme, mostrar o papel político do cinema quando joga luz sobre o cotidiano dos trabalhadores. Toda a tensão narrativa da história se movimenta por uma causa: a greve.
Discutir Eles Não Usam Black-tie reposiciona o trabalho como categoria central do ponto de vista estético e sociológico, acertando os ponteiros da arte com nosso momento histórico.
Do baile da insensatez ao samba do crioulo doido
Baseado em peça homônima apresentada em 1958, é sem dúvida uma grande obra, e discutir sua atualidade é pensar sobre a atualidade do trabalho tanto no campo da representação quanto no da organização da sociedade. Anos antes da aliança entre a burguesia e o Estado se consolidar, Guarnieri colocava no palco a classe trabalhadora como protagonista de um espetáculo que lotou o Teatro de Arena.
No fim dos anos 1970, o filme mostrou como a vida de uma comunidade estava circunscrita pelo funcionamento da fábrica. Nesses anos finais da ditadura, eclodia o Movimento dos Metalúrgicos do ABC, que convocava inúmeras assembleias para discutir questões salariais e reivindicar melhores condições de trabalho.
Navegar é preciso
Uma das grandes cenas do filme é a tentativa de aproximação afetiva, para uma conversa franca, entre os dois no bar. Antes de saírem, são abordados por um assaltante foragido da polícia. A cena ilustra o que ainda é a periferia no mundo de hoje, em que o descompasso da classe-que-vive-do-trabalho desemboca em barbárie e resignação.
O mundo de hoje é um tabuleiro político que situou o país na periferia do capitalismo. Por isso mesmo, nosso cinema só interessa lá fora como cinema subdesenvolvido, com seus temas sociais dramatizados.
Relembrando alguns conceitos marginalizados e renegados pela crítica cinematográfica, a coluna apenas apontou que os ventos que sopram a favor dos bem-sucedidos é o mesmo que levanta a poeira dos barracos. O cinema pode sofrer os sintomas ou apontar as causas dessa doença social em que vive o país.

























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