Histórias de amor duram apenas 90 minutos
aline.khoury - 23.03.2010
Por Aline Khoury
Logo nas primeiras falas de Histórias de amor duram apenas 90 minutos (Paulo Halm) o espectador prevê um personagem meio clichê. Como todo escritor em crise que se preze, Zeca (Caio Blat) é fumante, pálido, magrelo e vítima de uma arrebatadora paralisia criativa sem prazo para acabar. Seu ar de vagabundo chutador de latinhas pode ser resumido, como ele mesmo admite, pelo rabugento de Tom Jobim em “Lígia”: “Não gosto de samba. Não vou à Ipanema. Não gosto de chuva nem gosto de sol…”.
Para fomentar sua tendência suicida, parece que não apenas Zeca não gosta de nada, mas que nada ao redor sequer nota sua presença. Mesmo casado com a intelectual Julia (Maria Ribeiro), um vazio irreparável insiste em pairar por sua cabeça como uma nuvem cinzenta. Esse cotidiano sem graça e inerte é surpreendido pela charmosíssima Carol (a argentina Luz Cipriota), que passa a manter um caso com o aspirante a escritor.
Carol é aluna de Julia e a intimidade entre as duas se estreita a cada dia. As belas passam a ser tão próximas e confidentes que abrem margem a duplas interpretações sobre sua misteriosa relação. “Duplas”, porém, segundo as palavras de Zeca – e está justamente aí o ponto alto da trama. Ao acompanhar o filme apenas pela narração do rapaz, o espectador está sujeito somente ao seu olhar, e portanto às suas interpretações. Mas uma combinação explosiva de emoções ataca Zeca por todos os lados: os jogos de sedução da amante, o receio de perder a tão idealizada Julia, um ciúme doentio que sente por ambas e ainda a velha “dor de corno” (nesse caso duplamente dolorosa). Até que ponto, então, é possível confiar em um narrador assim tão perturbado?
Permeiam o filme cenas de carícias ingênuas e outras lascivas entre as muy amigas. Toda esta paixão pode, porém, não ter passado de flashes da imaginação do escritor. Somos reféns da visão de seu coração partido – e por isso mesmo desconfiado – como somos do juízo irreversível de Bentinho ao menor gesto de Capitu (que nessa história preferiu uma musa loira ao antiquado Escobar).












Gustavo Assano
23/03/2010
bom texto,mas devo admitir que o clichê da primeira impressão por vc descrita parece se estender por toda a trama… mas precisaria ver o filme antes de fazer qualquer colocação. Beijos!
Arthur Giannattasio
24/03/2010
Excelente texto! A dúbia referência a Machado de Assis no início, e o desfecho explícito a Dom Casmurro foram muito boas! Ainda porque essa associação não é imediata no filme, mas apenas pensada, ou ainda, apenas a partir de um parar para pensar sobre o significado das coisas a partir dos elementos do filme. O que eu admiro muito. Parabéns!
Bruna Biazon
12/04/2010
Excelente texto… Ele foi escrito de uma forma muito cativante, trazendo à tona a vontade de assistir o filme… Parabéns!!!