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A cruz de Anselmo Duarte
Publicado em 10/05/2010
Por Alexandre Carvalho dos Santos
Enquanto dançava no cassino da Urca, Anselmo Duarte foi descoberto por Orson Welles, que o chamou para participar de It’s All True (1942). Mas foi a partir de Querida Susana (1947), seu primeiro papel principal, que o paulista de Salto se tornaria o galã ícone do cinema brasileiro.
Ainda no auge da popularidade, Anselmo foi para o outro lado das câmeras. Logo em seu primeiro filme como diretor, Absolutamente Certo (1957) conquistaria enorme sucesso – para a surpresa dos que não conseguiam dissociá-lo da imagem de galã. Com seu segundo filme, O Pagador de Promessas (1962), Anselmo Duarte rompia de vez com o destino de belo descerebrado que queriam para ele. O filme adianta aspectos que se tornariam idiossincrasias da produção de Anselmo Duarte, como a exposição das desigualdades sociais, as influências do neorrealismo italiano e a narrativa linear clássica.
A direção minuciosa dos atores e um raro senso de mise-en-scène renderiam ao diretor uma honra jamais conquistada por outro cineasta brasileiro: a Palma de Ouro em Cannes. Essa consagração, por paradoxal que pareça, seria também sua perdição, sua queda definitiva aos olhos do jornalismo cultural brasileiro da época.
As maiores críticas vinham dos jovens diretores do Cinema Novo – não por uma maldade sem razão, mas porque esses amantes da Nouvelle Vague buscavam uma estética moderna que repudiasse tudo o que a Vera Cruz vinha fazendo até então. E que maior símbolo dos grandes estúdios e inspirações nos clássicos americanos do que Anselmo Duarte?
Seu filme seguinte à premiação em Cannes, Vereda da Salvação (1964), só faltou ser proibido pelos cadernos culturais. Começava ali um desencanto do diretor por seu próprio meio que teve influência direta no resultado artístico das próximas obras. Um Certo Capitão Rodrigo, por exemplo, está distante do apuro visual e da mise-en-scène autoindulgente de O Pagador de Promessas. A última tentativa, que só confirmaria a decadência, seria Os Trombadinhas. A obra de 1979 já começava errada com um improvável Pelé como protagonista e co-autor do roteiro.
É triste que a crítica nacional da época não tenha sido sensível o bastante para perceber que Glauber e Anselmo poderiam igualmente dar exemplos de grande cinema. É triste, ainda, que essa crítica tenha se voltado de forma tão violenta contra um diretor nosso que teve a petulância de desbancar Buñuel, Antonioni, Ford e Bresson no mesmo festival.
Pouco antes de morrer, Anselmo Duarte disse que logo deixaria de ser o único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro, porque identificava grandes talentos nas novas gerações. Dava ainda um conselho aos jovens: “Acreditem no que vocês estão produzindo. Pode ser que vocês estejam fazendo o melhor filme do mundo, e não saibam”.
Em 1962, na França, o júri do festival de cinema mais prestigiado do planeta anunciou que um brasileiro havia feito o melhor filme do mundo daquele ano. Era Anselmo Duarte, o caipira de Salto, ainda que seu próprio país dissesse que não.

























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