Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
A Temperatura de Insolação
Publicado em 07/06/2010
Por André Frateschi
A cena do teste para Insolação não tinha nenhuma fala, o que já de início foi diferente de todos os outros de que eu havia participado. Foi preciso me despir de artifícios e muletas que eventualmente uso em situações como essa. O diretor de casting me pedia menos, e sem saber muito bem se estava conseguindo, cheguei ao fim da cena.
Um mês se passou e recebi a confirmação de que eu estaria no filme. Fiquei muito feliz e apreensivo, pois desde o primeiro espetáculo da Sutil Companhia de Teatro tenho imensa admiração pelos envolvidos. Felipe Hirsch dá uma importância muito grande à música em seus trabalhos, característica que divido com ele. Na construção de todos os meus personagens faço uma pesquisa musical para descobrir qual é o som de cada um. Acabo fazendo um álbum com oito ou dez músicas que me acompanha durante todo o trabalho.
Debrucei-me sobre o roteiro de Will Eno e Sam Lipsyte. Na época, eu estava acabando um trabalho na televisão e tive novamente que me despir para poder entrar na temperatura de Insolação. O roteiro sugeria mais do que indicava. Meu personagem passa todo o filme calado, e a economia normalmente necessária para o cinema tinha que ser radicalizada.
Entra aí um episódio que me ajudou nessa “busca de minha menor grandeza”. Uma semana antes do filme fui para Fernando de Noronha. A magnitude e a força bruta da natureza dali redimensionam automaticamente a existência. Com o passar dos dias, fui diminuindo a velocidade da rotina e me aproximando do personagem Ricardo. Ele é um sujeito que passa os dias sem perceber o mundo ao redor. Ele está aprisionado pela rotina, e nem se queixa disso, até que num acidente conhece uma mulher que o desperta para sua própria insolação.
Quando chegamos a Brasília, começamos a caracterização. Decidimos raspar meu cabelo, e desse modo Ricardo ganhou mais um espaço. Esta foi mais uma camada despida no processo de construção/desconstrução. Outra etapa do ritual é calçar os sapatos do personagem. Como ele anda? Onde lhe apertam os calos? Parece bobagem, mas é um momento fundamental para mim.
No primeiro dia de filmagens, sigo com minha seleção musical no ouvido. Como Ricardo não fala, só escuto música instrumental. Ao chegar à locação, mais uma peça se encaixa. Uma Brasília abandonada, a utopia não realizada. Prédios enormes e magníficos semidestruídos – uma metáfora para os personagens do filme.
Insolação não tem um roteiro tradicional. Por meio desse roteiro elaborado e da fotografia coruscante de Mauro Pinheiro Jr., o filme busca imprimir o sentimento de insolação interna, a febre que a paixão provoca. Percebido isso, abandonei de vez o desenvolvimento psicológico do personagem. Durante todo o processo, não tinha certeza do resultado daquilo que eu estava fazendo. Minha baliza foi a reação do Felipe – ele parecia feliz e a mim restava confiar.
Foram necessários cinco anos até que o filme fosse rodado. Quando assisti, fiquei muito satisfeito com a transformação daquele roteiro um tanto hermético num estranho filme sobre o amor. Uma frase do fundador do Group Theatre de Nova York norteou meu trabalho: “O silêncio é a falta de palavras, mas nunca a falta de significado.”

























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