Tela Brasil – O portal de formação e informação sobre o universo audiovisual » Blog Archive » O Abraço CorporativoO Abraço Corporativo

O Abraço CorporativoO Abraço Corporativo

aline.khoury - 18.06.2010

Por Aline Khoury (@aline_khoury)

Tom impessoal, frases claras e curtas, concordâncias impecáveis. Como estes, muitos pontos são repetidos à exaustão nos cursos de comunicação. Até que chega a hora dos artigos deixarem a caneta do professor e passarem a preencher as manhãs de milhares de pessoas. E é aí que apenas as regras textuais são lembradas. Todas aquelas longas discussões sobre ética se tornam delírios de alguns colegas no furor da esquerda ou de professores utópicos que, decepcionados com a redação main stream, se refugiaram nas teses e divagações teóricas. Cláudio Abramo tornou célebre a declaração de que o jornalismo é, antes de tudo, a prática diária da inteligência e do caráter. A frase impactante é repetida com orgulho por toda a classe jornalística. Mas onde fica sua real repercussão enquanto se escreve sob um relógio impaciente e torturante?

Também os idealistas se deixam engolir pelo imediatismo das redações, que sugam muito mais os movimentos de seus dedos que o potencial de seus cérebros. “Entregar o produto mais quente, bem acabado e atraente no menor espaço de tempo”. A descrição se encaixa tanto na produção de Combos em Fastfoods quanto na esteira das notícias. Nem sequer a crítica a este modelo escapa dele próprio. Colunistas apontam tais problemas, mas não revertem esta lógica. Grande parte das críticas não sai do círculo da repetição e se tornam entediantes. Se o jornalismo industrial é sempre mais do mesmo, seus críticos correm o risco de seguir igual caminho.

Buscando fugir deste estereótipo, a denúncia de O abraço corporativo encontrou um meio mais criativo para apontar o descaso da mídia nacional. O documentário de Ricardo Kauffman segue a linha dos ativistas do coletivo The Yes Men e do artista/humorista Joe Skaggs, pregando peças na imprensa que revelam sua fragilidade e falta de comprometimento. Encarnando um sábio africano, Skaggs convenceu emissoras renomadas em vários países do poder de sua “terapia do leão”. Além de páginas em revistas conceituadas, o resultado foi a embaraçosa participação de jornalistas famosos, que toparam rugir e rastejar por uma pauta chamativa.

Na obra de Kauffman, um ator passa a encarnar um consultor de RH que procurava difundir novas técnicas para melhorar o ambiente de trabalho. Sua terapia baseava-se no simples abraço entre os colegas, remédio para o mal que ele diagnosticava como “inércia do distanciamento”. CBN, Record, Editora Globo, Folha On Line e outros meios de enorme alcance não pesquisaram o suficiente para desmascarar a farsa. Bater os olhos no site fictício ou trocar ideias com o suposto assessor por telefone já foram o bastante para pintar o personagem como um grande guru empresarial.

E o sucesso do abraço não foi só corporativo. Revistas de comportamento e beleza convidaram o personagem Ary Itnem para as mais inusitadas pautas. Em todas elas, o encaixe do consultor era um tanto forçado, em assuntos de pouquíssima relação com seu perfil. Fica claro aí um mote bem conhecido nas redações: defina a frase, e só em seguida encontre alguém para dizê-la.

Enquanto dinamismo for confundido com superficialidade, a lei do mínimo esforço continuará reinando. Um jornalismo preguiçoso forma uma sociedade alienada. A liberdade de imprensa (e principalmente seu engajamento) é irmã siamesa da democracia. Uma não sobrevive sem a outra. Triste parto o do Brasil, em que ambas são defeituosas de nascença.

Freelance Web Developer

Comentários

Não há comentários no momento.

Envie seu comentário