Assista a alguns dos melhores curtas-metragens nacionais disponíveis na internet. Além de produções recentes, conheça curtas que se tornaram clássicos do cinema brasileiro.
Malandro é malandro
Publicado em 23/06/2010
Por Lucas Guratti (@gurattilucas)
Lenço, corrente de ouro, boina ou chapéu panamá. No dicionário, a malandragem é definida como um conjunto de artimanhas utilizadas para se obter vantagem em determinada situação, quase sempre de forma ilícita ou subversiva. Em sua essência, é sutil e engenhosa. Por muitas vezes, poética. Uma arte que exige destreza, carisma, lábia e toda a característica que ajude na manipulação de pessoas ou resultados, da maneira mais vantajosa e fácil possível. Nesses termos, a argumentação lógica, o trabalho e a honestidade são considerados, digamos, obsoletos.
No imaginário popular brasileiro, a malandragem é também descrita como uma ferramenta de justiça social. Diante da força das instituições, o indivíduo sobrevive manipulando pessoas, enganando autoridades e driblando leis, garantindo seu tão almejado bem-estar. Dessa forma, o malandro é o típico herói tupiniquim.
Em Macunaíma, de Mário de Andrade, o homem brasileiro é sintetizado na figura da personagem principal. O “herói de nossa gente” surge exatamente da necessidade de uma nova definição do que era ser brasileiro, tema pulsante na década de 20, quando os imigrantes contribuíam para um novo perfil de nação, gerando a diversidade cultural que temos hoje. Um anti-herói com um carisma e uma forma de vivermuito peculiar. Outros tantos personagens se encaixam perfeitamente nesse perfil. São os casos de Leonardinho, de Memórias de Um Sargento de Milícias, João Grilo, de O Auto da Compadecida, Zé Carioca e o personagem vivido por Mazzaropi na década de 60, Pedro Malazartes.
O malandro é um romântico. Leva uma vida cheia de altos e baixos, mas sempre encontra uma maneira de se desvencilhar dos problemas. Na vida dele, nada é definitivo, nada é concreto. Tudo é ambíguo, tudo é talvez. A malandragem é uma metamorfose constante, é uma parte “nômade” da alma. O sujeito tem necessidade de se dar bem, mas não exige extravagâncias. E, por incrível que pareça, virou figura folclórica, querido por todos. Ganhou tanta importância que virou até garoto-propaganda. (Continua…)
Na década de 70, o ex-jogador e tricampeão mundial de futebol Gerson participou de uma campanha publicitária para a marca de cigarros Vila Rica. Era um momento em que se pensava o nacionalismo em parâmetros bem diferentes dos anos 20. Havia um orgulho verde-amarelo e uma megalomania alimentada pela ditadura. Gerson, um herói nacional, solta então sua frase mais famosa em rede nacional: “Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?”. As palavras viraram lei. Era a consolidação do pensamento cultural do país, ou a invenção oficial do famoso “jeitinho brasileiro”. A propaganda captou um elemento de identificação que já estava no imaginário popular e escancarou para todo mundo ver.
Muito além das páginas dos livros, dos filmes e da fantasia, o verdadeiro representante da classe malandra está no mundo real. Mais precisamente, na música. O maior deles, sem dúvida, tem nome certo: Bezerra da Silva. Cantor e compositor de clássicos do samba, o saudoso Bezerra traz em suas canções a realidade da malandragem e a dureza de viver nas maiores fábricas de malandros do mundo: os morros cariocas. É o que vemos no documentário de curta-metragem Coruja, de Márcia Derraik e Simplício Neto. Com acidez e bom humor, sambistas, moradores do morro e o próprio Bezerra contam um pouco da realidade do malandro de hoje e de 50 anos atrás, tomando sempre o cuidado de separar muito bem o joio do trigo. Melhor dizendo, separar o malandro do mané, assim como diz a letra de um samba famoso. De autoria de Bezerra, claro.
Falecido em 2005, Bezerra da Silva talvez tenha sido o último grande representante daqueles que viviam, segundo a gíria popular, de “expediente”. O malandro brasileiro está extinto. Antigamente, essa figura era astuta, esperta e sabia dar um “jeitinho” em tudo. Ganhava dinheiro de maneiras pouco-convencionais, nem sempre ilícitas. Jogava bilhar, apostava em cavalos e, de vez em quando, aplicava pequenos golpes (eu disse nem sempre ilícitas). O homem corrupto tomou o lugar do malandro legítimo, superando os limites da falta de ética e da imoralidade, da contravenção e da corrupção.
A boa conversa foi substituída drasticamente pela mentira. O “jeitinho” foi dissolvido pela falta de escrúpulos. A navalha, antes aposentada, agora aparece ainda mais afiada. A corrupção virou uma praga, incontrolável, enraizada, que controla e rege toda a população. Ninguém pensa em ninguém, ninguém mede as conseqüências de nada. As injustiças só crescem diante do sentimento de identidade nacional, cada vez mais apagado. Cada vez mais, com a plena apatia e conivência da sociedade, nos tornamos farinha do mesmo saco. Enquanto não nos mobilizamos, resta apenas matar as saudades. Saudades de um tempo que não volta, quando até os malandros tinham moral.

























Paulo Gomes
03/07/2010
Assisti esse curta metragem foi uma boa oportunidade de aprendizagem e me serviu como ótima referência para meu aprendizado.Agradeço por disponibilizarem essa obra.Forte abraço!