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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

Sem ponto de fuga

Publicado em 28/06/2010

 

mutarelli_fotoSem ponto de fuga
Por Caio Zerbini
Mutarelli começou sua carreira como ilustrador e quadrinista. De seus onze álbuns publicados, destacam-se Transubstanciação e a trilogia O Enigma do Enigmo. Em 2002 publicou seu primeiro romance, O Cheiro do Ralo. A obra foi adaptada às telas sob a direção de Heitor Dhalia. Daí em diante sua carreira de escritor deslanchou – já são cinco romances publicados, além de uma coletânea de peças de teatro. Seu terceiro romance, O Natimorto, também virou filme, dirigido por Paulo Machline e protagonizado pelo próprio Mutarelli.
BETA Como foi sua transição de quadrinista para romancista?
Lourenço Mutarelli Eu falo que aconteceu acidentalmente. Estava um pouco saturado de imagens e, no momento em que comecei a pensar na história de O Cheiro do Ralo, percebi que quando você lê um texto, imagina algo muito mais próximo da realidade do que quando lê um quadrinho, em que uma imagem já filtra ou determina muita coisa. Tem uma coisa muito boa dos quadrinhos que é o fato de não existir um olhar tão crítico sobre ele. Não é uma coisa levada a sério como a literatura ou ainda cara como o cinema, então você pode experimentar muito. Acho que eu sempre quis escrever, mas tinha medo, e o quadrinho foi uma transição.
BETA Quais artistas mais influenciam sua literatura?
LM Kafka, Dostoievski, Raúl Ruiz, Polanski e outros. Além disso, trabalho muito com o eco das minhas primeiras impressões da infância.
BETA No caso dos livros Jesus Kid e Miguel e os Demônios, o fato de escrevê-los com a intenção de que virassem filmes interferiu no seu processo criativo?
LM Interferiu. Jesus Kid é um argumento do Heitor, muito em cima do Barton Fink, um filme dos irmãos Coen. O Heitor foi pedindo coisas cada vez mais absurdas para esse argumento, mas eu consegui incorporar todas. Já Miguel e os Demônios é um romance policial, então tem que ter uma tensão. Escrevi Miguel já faz algum tempo, e quando mexi nele pra publicar fiquei impressionado, pois as lembranças que eu tinha eram de ter visto um filme.
BETA Há um projeto para transformar o Dobro de Cinco (álbum da trilogia O Enigma do Enigmo) em filme?
LM A gente fez um teaser que ficou lindo. Era um piloto pra tentar vender para algum canal a cabo que produziria como série. Levaram pra duas emissoras que não se interessaram, acharam muito bizarro. Foi meio engavetado, mas existe a intenção de levar pro cinema. Era um projeto muito caro porque o Grampá (desenhista de produção) queria que as ruas fossem como nos meus desenhos, em realidade virtual, mas sem ponto de fuga, que é algo que encarece demais a produção.
BETA Você já dirigiu ou fez roteiros para cinema?
LM Não, roteiro eu não consigo porque não domino a técnica. Costumo falar uma coisa que parece pejorativa mas não é: o roteiro é quase a autópsia de um texto, porque é uma coisa clínica, uma “peça” cirúrgica mesmo, e eu sou meio passional quando escrevo. E dirigir… em algum momento eu já pensei, mas tenho uma visão de que é muito difícil ser autoral na direção de um filme, por envolver muita grana, produção, muita gente…
BETA Você tem vontade de criar para TV?
LM Acho muito difícil. Eu fiz duas temporadas de uma minissérie chamada Corpo Estranho pro site Teatro para alguém (www.teatroparaalguem.com.br). Lá a gente tem toda a liberdade, dá pra brincar. Mas em TV acho muito difícil eu conseguir me enquadrar. Tenho vontade de juntar um pessoal legal e fazer uma novela, num canal menor, brincando com tudo.
BETA O Cheiro do Ralo foi a sua primeira experiência como ator?
LM Não, eu já tinha atuado antes. Houve uma história divertida quando eu estava escrevendo a minha primeira peça de teatro (O que você foi quando era criança?). Nessa época, um menino da USP (Célio Franceschet) que dirigiu um curta chamado Cidade do Tesouro me ligou e falou que queria me convidar. Eu achei que era pra pedir ajuda no roteiro, mas ele falou que era pra atuar como protagonista e que não tinha cachê. Era um convite tão absurdo que eu só pude aceitar. Eu gosto do curta, mas acho meu trabalho medíocre. Foi o primeiro…
BETA Quais foram as diferenças no seu trabalho como ator em O Cheiro do Ralo e em O Natimorto, no qual você foi protagonista?
LM O Heitor perguntou se eu não poderia substituir o Selton nos testes com os atores, acabou gostando e me convidou para atuar. As cenas do meu personagem são, na maioria dos casos, improvisos, coisas que nem estão no livro. Era tranquilo, muito pouco texto e muito descontraído. No Natimorto foi tudo bem mais complicado. Primeiro, quando eu não concordava com alguma coisa, era como ator, mas às vezes o Paulinho (Machline) achava que eu estava falando como autor. Então eu acabava opinando o mínimo possível. Além disso, tinha uma quantidade muito grande de texto, que não era mais meu, e eu tinha que ser preciso, pois os diálogos eram muito importantes na trama. Eram blocos gigantescos, difíceis de decorar, com muito jogo de troca entre mim e a Simone (Spoladore). O processo foi muito interessante, um puta desafio, uma puta responsabilidade, mas eu gostei.
BETA Você gostou do resultado final?
LM Houve dois momentos. Quando eu vi o corte final gostei muito; quando vi no cinema, no Festival do Rio, fiquei muito mal, achei meu trabalho estranho. A exposição, não sei bem, não foi uma experiência tão legal. Nesse festival eu senti uma coisa muito competitiva. Com O Cheiro do Ralo, não sei se é porque tinha o Selton e outras pessoas conhecidas, era algo mais próximo de como geralmente são os eventos literários ou de quadrinhos, uma confraternização em que você está com os amigos. Neste eu senti um clima muito hostil, estava pouco à vontade.

Por Caio Zerbini

Lourenço Mutarelli começou sua carreira como ilustrador e quadrinista. De seus onze álbuns publicados, destacam-se Transubstanciação e a trilogia O Enigma do Enigmo. Em 2002 publicou seu primeiro romance, O Cheiro do Ralo. A obra foi adaptada às telas sob a direção de Heitor Dhalia. Daí em diante sua carreira de escritor deslanchou – já são cinco romances publicados, além de uma coletânea de peças de teatro. Seu terceiro romance, O Natimorto, também virou filme, dirigido por Paulo Machline e protagonizado pelo próprio Mutarelli.

BETA Como foi sua transição de quadrinista para romancista?

Lourenço Mutarelli Eu falo que aconteceu acidentalmente. Estava um pouco saturado de imagens e, no momento em que comecei a pensar na história de O Cheiro do Ralo, percebi que quando você lê um texto, imagina algo muito mais próximo da realidade do que quando lê um quadrinho, em que uma imagem já filtra ou determina muita coisa. Tem uma coisa muito boa dos quadrinhos que é o fato de não existir um olhar tão crítico sobre ele. Não é uma coisa levada a sério como a literatura ou ainda cara como o cinema, então você pode experimentar muito. Acho que eu sempre quis escrever, mas tinha medo, e o quadrinho foi uma transição.

BETA Quais artistas mais influenciam sua literatura?

LM Kafka, Dostoievski, Raúl Ruiz, Polanski e outros. Além disso, trabalho muito com o eco das minhas primeiras impressões da infância.

BETA No caso dos livros Jesus Kid e Miguel e os Demônios, o fato de escrevê-los com a intenção de que virassem filmes interferiu no seu processo criativo?

LM Interferiu. Jesus Kid é um argumento do Heitor, muito em cima do Barton Fink, um filme dos irmãos Coen. O Heitor foi pedindo coisas cada vez mais absurdas para esse argumento, mas eu consegui incorporar todas. Já Miguel e os Demônios é um romance policial, então tem que ter uma tensão. Escrevi Miguel já faz algum tempo, e quando mexi nele pra publicar fiquei impressionado, pois as lembranças que eu tinha eram de ter visto um filme.

BETA Há um projeto para transformar o Dobro de Cinco (álbum da trilogia O Enigma do Enigmo) em filme?

LM A gente fez um teaser que ficou lindo. Era um piloto pra tentar vender para algum canal a cabo que produziria como série. Levaram pra duas emissoras que não se interessaram, acharam muito bizarro. Foi meio engavetado, mas existe a intenção de levar pro cinema. Era um projeto muito caro porque o Grampá (desenhista de produção) queria que as ruas fossem como nos meus desenhos, em realidade virtual, mas sem ponto de fuga, que é algo que encarece demais a produção.

BETA Você já dirigiu ou fez roteiros para cinema?

LM Não, roteiro eu não consigo porque não domino a técnica. Costumo falar uma coisa que parece pejorativa mas não é: o roteiro é quase a autópsia de um texto, porque é uma coisa clínica, uma “peça” cirúrgica mesmo, e eu sou meio passional quando escrevo. E dirigir… em algum momento eu já pensei, mas tenho uma visão de que é muito difícil ser autoral na direção de um filme, por envolver muita grana, produção, muita gente…

BETA Você tem vontade de criar para TV?

LM Acho muito difícil. Eu fiz duas temporadas de uma minissérie chamada Corpo Estranho pro site Teatro para alguém (www.teatroparaalguem.com.br). Lá a gente tem toda a liberdade, dá pra brincar. Mas em TV acho muito difícil eu conseguir me enquadrar. Tenho vontade de juntar um pessoal legal e fazer uma novela, num canal menor, brincando com tudo.

BETA O Cheiro do Ralo foi a sua primeira experiência como ator?

LM Não, eu já tinha atuado antes. Houve uma história divertida quando eu estava escrevendo a minha primeira peça de teatro (O que você foi quando era criança?). Nessa época, um menino da USP (Célio Franceschet) que dirigiu um curta chamado Cidade do Tesouro me ligou e falou que queria me convidar. Eu achei que era pra pedir ajuda no roteiro, mas ele falou que era pra atuar como protagonista e que não tinha cachê. Era um convite tão absurdo que eu só pude aceitar. Eu gosto do curta, mas acho meu trabalho medíocre. Foi o primeiro…

BETA Quais foram as diferenças no seu trabalho como ator em O Cheiro do Ralo e em O Natimorto, no qual você foi protagonista?

LM O Heitor perguntou se eu não poderia substituir o Selton nos testes com os atores, acabou gostando e me convidou para atuar. As cenas do meu personagem são, na maioria dos casos, improvisos, coisas que nem estão no livro. Era tranquilo, muito pouco texto e muito descontraído. No Natimorto foi tudo bem mais complicado. Primeiro, quando eu não concordava com alguma coisa, era como ator, mas às vezes o Paulinho (Machline) achava que eu estava falando como autor. Então eu acabava opinando o mínimo possível. Além disso, tinha uma quantidade muito grande de texto, que não era mais meu, e eu tinha que ser preciso, pois os diálogos eram muito importantes na trama. Eram blocos gigantescos, difíceis de decorar, com muito jogo de troca entre mim e a Simone (Spoladore). O processo foi muito interessante, um puta desafio, uma puta responsabilidade, mas eu gostei.

BETA Você gostou do resultado final?

LM Houve dois momentos. Quando eu vi o corte final gostei muito; quando vi no cinema, no Festival do Rio, fiquei muito mal, achei meu trabalho estranho. A exposição, não sei bem, não foi uma experiência tão legal. Nesse festival eu senti uma coisa muito competitiva. Com O Cheiro do Ralo, não sei se é porque tinha o Selton e outras pessoas conhecidas, era algo mais próximo de como geralmente são os eventos literários ou de quadrinhos, uma confraternização em que você está com os amigos. Neste eu senti um clima muito hostil, estava pouco à vontade.

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