Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br
As mãos de Lars von Trier
Publicado em 12/07/2010
Por Edilamar Galvão
“Eu tento enganar o mundo porque não quero fazer parte dele. Meu truque é barato e o repito infinitamente. Se continuo a contar ao espectador o que vejo – como um prisioneiro de guerra que repete seu nome e número – sem adicionar nada… Emoções são perigosíssimas – o mundo e eu caímos nela. Chamo isso de Arte – mas estou certo de que nada posso fazer. Apenas faço desse modo. E posso suportá-lo comigo mesmo. Meus filmes são um blefe. Um refúgio, Lars.”
São palavras do diretor e poeta dinamarquês Jorgen Leth para Lars von Trier em The five obstructions (2003). Na verdade são palavras escritas por Lars von Trier para serem ditas por Jorgen Leth como se ele, Jorgen, as tivesse escrito para Von Trier. Nessa mesma carta, Leth (se aceitarmos o jogo proposto pelo diretor) diz: “Talvez você ponha palavras na boca das pessoas para livrar-se de dizê-las você mesmo”.
Os dois diretores assinam The five obstructions, mas, a acreditar nos créditos, Lars von Trier foi, na verdade, o “obstrutor” e Leth, o diretor. Tomo esse filme como a declarada filosofia da composição de Von Trier. O “enredo” é simples: Von Trier, fascinado pelo curta The perfect human (1967), de Jorgen Leth – obra que confessa ter visto no mínimo umas vinte vezes –, propõe a Leth refilmá-lo em cinco novas situações, mas de acordo com regras ou “obstruções” propostas por ele, Lars. Este, agora em sua própria voz, explica: “Na minha formação cinematográfica o que Jorgen chama de regras do jogo sempre foi fundamental. Elas foram algo que ele introduziu no meu universo. São limitações ou autoflagelações se você quiser. Eu quis impor esse flagelo à Jorgen”.
Aí já podemos perceber o quanto Lars von Trier parece estar disposto a “pensar seriamente” o mundo que o toca, como naquela citação de Wittgenstein: “Você não estará pensando seriamente se não estiver disposto a se ferir”. Semelhante a uma passagem de Anticristo, de Nietzsche, o livro que Von Trier diz ter na cabeceira desde os 12 anos, onde lemos: “Nas coisas do espírito é preciso ser honesto até a dureza para apenas suportar a minha seriedade, a minha paixão”.
É preciso coragem. A cada filme, Lars von Trier parece ter se proposto uma nova regra, uma nova fronteira, algo que o “ferisse” e o fizesse ir além. “Sua teoria não se sustenta, Lars. Sua missão pedagógica não deu resultado. Minhas mãos tremem menos, obstrução por obstrução, (… mas)”, diz Jorgen Leth para Von Trier (na carta escrita pelo próprio Lars von Trier, lembre-se).
Tocou-me muito ver Lars von Trier na coletiva de imprensa de Anticristo no festival de Cannes do ano passado. Nunca vi suas mãos tremerem tanto.

























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