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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

Matriarcas da revolução

Publicado em 26/07/2010

 

Por Christina Stephano de Queiroz

A documentarista marroquina Dalila Ennadre (1966) pertence a uma geração de jovens cineastas árabes que, a partir dos anos 1990, inovou o cinema da região. Entre as mudanças realizadas está a forma como a mulher passou a ser retratada. Assim, se nos anos 1950 os personagens femininos costumavam ser castos, bondosos e ingênuos – sendo castigados sempre que insultavam a tradição ou a religião –, hoje se procura mostrar aspectos mais realistas e positivos desses personagens.

Em linha com as transformações observadas no cinema, a mulher também busca uma real mudança de papel nas sociedades árabes, de forma a poder atuar como um sujeito desejante, que participa ativamente do cotidiano da cidade. E Dalila documenta essa vontade. De vida itinerante, a cineasta, que morou em países como Canadá, Alemanha, França e Marrocos, tem filmado a biografia única de heroínas bastante particulares.

Em Fama… Une héroïne sans gloire (França, 2004), a autora apresenta o cotidiano de Mé Fama que, com 15 anos, decidiu entregar-se à luta por um Marrocos livre e democrático. Ela nunca teve uma casa, tampouco se casou ou teve filhos – algo fora do comum em sociedades muçulmanas tradicionais –, dedicando-se integralmente a livrar o país do poder colonizador e, mais tarde, da opressão dos próprios governantes locais.

Dalila também filmou a impressionante história da anciã Aïcha Messaoud. Originária da Mauritânia, essa senhora trabalhava como escrava para um ilustre família nômade, que passou a incentivar sua educação. Com o passar dos anos a família sedentarizou-se, mas Aïcha seguiu com a vida itinerante por alguns anos ainda, deslocando-se através do deserto completamente sozinha e guiada pelo sol ou pelas estrelas. No documentário, Dalila percorre milhares de quilômetros no deserto para registrar os percursos infinitos de sua protagonista e entrevistar amigos e conhecidos, que garantem que a senhora converteu-se em uma lenda.

Quais os desafios de realizar um filme no Marrocos?

A principal dificuldade é encontrar ajuda financeira para produzir os documentários. Os cineastas do país, que são muitos, precisam buscar dinheiro no exterior para realizar seus trabalhos. É irônico, pois, para que os próprios marroquinos vejam filmes de seus conterrâneos, o trabalho precisa passar pela mão de um estrangeiro. Agora mesmo estou na luta para conseguir recursos para filmar um documentário sobre prostitutas do Marrocos.

E quais os impactos da participação estrangeira no filme? É preciso ter cuidado com o que se vai dizer?

Não, ao contrário. Na indústria cinematográfica do exterior as permissões para filmar saem mais facilmente. Do outro lado, no Marrocos, há muita pressão política e policial. No caso dos meus filmes que, muitas vezes, centram-se em personagens de pequenos povoados, esse problema é ainda mais grave, pois as pessoas têm medo de perder seu trabalho ou de serem ameaçadas, caso digam algo considerado obsceno ou impróprio.

Como funciona a distribuição dos seus filmes no mundo árabe?

Eles são mais difundidos no exterior (principalmente na França e na Espanha) e, em geral, chegam ao Marrocos ou a outros países árabes por meio da televisão a cabo. Houve gente interessada em projetar meu último documentário, J’ai tant aimé (França, 2008), no mundo árabe, com a condição de que eu cortasse as partes onde se fala abertamente de sexualidade. Lógico que me recusei. Respondi às autoridades que cortar 15 minutos de um filme é o mesmo que cortar o braço de uma pessoa. Além disso, esse trabalho conta a história de Fadma, senhora marroquina que trabalhou como prostituta para a armada colonial francesa durante a guerra da Indochina… Também por isso é impossível cortar os momentos em que ela fala de sexo! Fadma, agora, reivindica que a França lhe reconheça como veterana de guerra, como todos os outros soldados que lutaram no conflito.

Outro exemplo de como as autoridades marroquinas atuam foi o que ocorreu com o documentário sobre Mé Fama. Os governantes compraram os direitos de projeção no país, justamente para bloquear sua difusão. Quando fiz a venda, não sabia de suas intenções e, agora, não há forma de reverter a situação.

Você se considera marroquina ou francesa?

Eu me considero francesa e marroquina ao mesmo tempo e nunca tive conflito de identidades. Meus pais imigraram para França nos anos 1950, mas minha mãe queria, de qualquer maneira, que eu nascesse no Marrocos. Então, quando estava a ponto de dar à luz, decidiu viajar ao país.

As mercadorias podem passar livremente de um país a outro, mas as pessoas não. E acredito que pessoas como eu têm um papel importante na abertura do diálogo entre o mundo árabe e o Ocidente, na medida em que mostramos realidades diferentes para ambas as partes.

Por que documentários e não filmes de ficção?

Porque a vida já é tão cheia de histórias… Não faz falta inventar nada! Mesmo tendo vivido a maior parte do tempo fora do Marrocos, acho importante contar histórias relacionadas com minhas raízes. Além disso, os documentários são uma forma de dar voz aos marroquinos e permitem que as próprias heroínas observem a si mesmas.

 

dalila

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