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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

Filme nacional: o que eu faço com o meu?

Publicado em 09/08/2010

 

Por Marta Machado

O caminho de um filme brasileiro até as salas de cinema é tortuoso. No caso de uma animação, mais ainda. Feita fora do eixo Rio–São Paulo, então… Do ponto de vista dos realizadores, viver esse momento de angústia pode ser fatal. Nosso circuito exibidor está estabelecido para um tipo de filme: o blockbuster norte-americano. O que entra de nacional, nas brechas, precisa necessariamente seguir essa lógica ou está fadado ao infortúnio. A menos que mudemos esse contexto, vamos seguir ainda por muito tempo reclamando.

Quando comecei a pensar no lançamento de Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nos cinemas, em 2005, me dei conta de que precisava de uma espécie de mapa que me ajudasse a decifrar esse percurso. O máximo que consegui encontrar foi o livro The Complete Independent Movie Marketing Handbook, do norte-americano Mark Steve Bosko, que foi muito útil por uma série de dicas e toques que ajudaram a configurar principalmente as estratégias de divulgação do filme. Mas a lógica de nosso mercado continuava um mistério, porque o livro dava conta de outro universo, o norte-americano.

O jeito foi ir desbravando caminhos, garimpando informações, extorquindo dicas de fontes daqui e dali. Passados alguns meses de duro trabalho de planejamento, preparação de materiais e estudos sobre o setor, o Otto Guerra (diretor do filme e meu parceiro em muitos projetos) achou que, se eu continuasse naquele caminho, morreria. E foi no lobby do Palácio dos Festivais, em Gramado, que o Foguinho, diretor de Anjos do Sol, filme que seria exibido naquela noite (16 de agosto de 2006) no Festival, nos apresentou o Bruno Wainer, da Downtown Filmes.

Entre um uísque e outro, acertamos que inscreveríamos juntos o filme na seleção Petrobras para recurso de lançamento, e, se ganhássemos, lançaríamos Wood & Stock com o Bruno. E foi o que aconteceu. Otto ficou aliviado, porque, com alguém experiente no leme, diminuiriam as chances de eu sucumbir. De fato não morri. Aprendi muito com o Bruno, e Wood & Stock conseguiu a façanha de alcançar um número de espectadores de cinco dígitos (foram mais de 58 mil).

Passado o frisson de lançar o primeiro filme e de acompanhar bem de perto esse processo, voltei a pensar sobre a falta que me fez aquele manualzinho que ajudasse a entender o caminho das pedras. Montei um projeto de livro e apresentei ao Fumproarte de Porto Alegre, um fundo que financia projetos culturais na cidade. O projeto foi aprovado e então começou a nascer Tudo que você queria saber sobre comercialização de um filme nacional, mas não tinha para quem perguntar. O título é longo, mas a proposta é simples: um manual em forma de perguntas e respostas que ajude o produtor novato a preparar seu filme para o mercado exibidor brasileiro ou, quem sabe, até inspirá-lo a criar novas alternativas.

O livro ainda não tem editora – essa é a nova peregrinação que se avizinha – mas está quase pronto e o leitor da BETA vai ter acesso em primeiríssima mão a uma das perguntas do livro.

Tenho que pensar nos recursos de lançamento ainda durante a produção?
Na fase de produção, não se pode negligenciar essa etapa futura importantíssima. Para o produtor, mesmo imerso em tantos problemas imediatos e urgentes, é um erro deixar para pensar nisso somente com o filme pronto. Todas as decisões que são tomadas ainda na produção precisam ser avaliadas à luz do resultado a que conduzem.

A comercialização pode se tornar uma fonte de financiamento para a produção em si – e, cada vez mais, no Brasil, vai se construindo um cenário para isso. Garantir a parceria de uma distribuidora pode aportar recursos de coprodução, seja de Artigo Terceiro, seja dos Funcines, ou até mesmo ampliar as chances de emplacar seu projeto em seleções, como a do Fundo Setorial do Audiovisual ou a do BNDES.

Por outro lado, ter uma participação desde a fase de realização do projeto agrega cabeças dedicadas exclusivamente a pensar na chegada da obra ao público consumidor. Assim, é preciso entender que cada vez mais a distribuição de um filme é decidida bem antes da filmagem da primeira cena, e cada vez mais também é preciso garantir o quanto antes quem pense a estratégia de lançamento do mesmo.

Quando não é possível ter um distribuidor pensando nisso por você, cabe ao produtor considerar sempre o público final em suas ações. Pequenas estratégias de pré-divulgação do filme durante a produção podem ajudar a criar no público uma expectativa positiva com relação à estreia da película. Só cuide para não “gastar” a imagem da obra. Há quem diga, por exemplo, que a divulgação excessiva antes da chegada aos cinemas faz com que o público sinta um cheirinho de mofo quando finalmente encontra a película em cartaz.

Também a circulação em muitos festivais cobertos por mídia nacional longo tempo antes de uma data acertada de estreia pode arruinar a carreira de um filme. Tudo isso são detalhes que podem ser discutidos com um distribuidor, que seja parceiro e colaborativo, ou com quem esteja montando a estratégia de divulgação do produto.

Comentários, opiniões, sugestões são bem-vindos e podem ser enviados para o e-mail: marta@snifsniffilmes.com.br.

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Comentários

  • Marta Machado

    10/08/2010

    Prezados,
    esse meu texto foi publicado antes da minha decisão de editar o livro só no formato digital. Pois, para quem gostou do papo e gostaria de saber mais, pode entrar no site http://www.tudosobrefilmenacional.com.br e ter acesso ao texto completo – no formato e-livro e áudio-livro. Abs, Marta

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