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Revista trimestral dedicada ao making of de produções audiovisuais. Publica entrevistas com cineastas e matérias sobre o trabalho dos profissionais que ficam atrás das câmeras. www.revistabeta.com.br

Guardiã do cinema nacional

Publicado em 23/08/2010

 

Por Júlia Motta

No casarão amarelo, número 5 da rua Santa Cristina, em Santa Teresa (RJ), quem abre a porta da antiga residência do visconde de São Luís do Maranhão é Alice Gonzaga, filha de Adhemar Gonzaga – jornalista que, há exatos oitenta anos, criou a Cinédia, um dos primeiros estúdios de cinema do Brasil.

Alice-Gonzaga

A história da vaidosa senhora de 75 anos se confunde com a da Cinédia, que foi criada em 15 de março de 1930 com o projeto de virar uma indústria cinematográfica. O interesse de Alice, por sua vez, nunca foi por dirigir ou atuar nas superproduções do estúdio. Sua paixão era arquivar. E não foi à toa. Ela exibe com orgulho o subsolo do casarão amarelo com seus 167 arquivos de quatro gavetas catalogados. São mais de 200 mil fotos e mil rolos de filmes que a filha de Adhemar Gonzaga conseguiu organizar.

Em 1971, Alice passou de arquivista a diretora da Cinédia. Adhemar Gonzaga faleceu em 1978. Os últimos 32 anos à frente do estúdio não foram fáceis. Com a criação do Projac pela Rede Globo, a Cinédia e outros estúdios, como o de Renato Aragão e a Tycoon, perderam boa parte de sua renda. “A Cinédia tinha dez mil metros quadrados, quatro estúdios e foi usada para a gravação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, da Malhação e diversos outros programas. Além de filmes, como Salário Mínimo (Adhemar Gonzaga, 1970) e Casa de açúcar, último longa do diretor argentino Carlos Hugo Christensen, filmado em 1996”, conta Alice.

Em 1996 uma forte chuva atingiu o Rio de Janeiro, e a enchente que se seguiu destruiu boa parte do arquivo da Cinédia. “Quando cheguei à Cinédia, o acervo inteiro do estúdio estava debaixo de água. Eram 2 mil rolos de filmes e perdemos mil rolos de imediato. Testemunhei uma parte do cinema brasileiro se perder”. Foi aí que entrou em cena o hoje coordenador de projetos e restaurador do estúdio, Hernani Heffner

Para salvar o material, Heffner abriu o estúdio e acendeu um dos maiores refletores do mundo, o HM1, para esquentar os rolos e secá-los. “Conseguiu dar uma sobrevida aos rolos, para permitir o restauro. Aí, virou uma escolha da Sofia: que filme restaurar primeiro? Qual é o mais urgente? Tínhamos que formular alguns critérios”, explica o especialista. Nascia assim um dos maiores restauradores de filme da cidade, que ministra a cadeira de restauração de filmes na faculdade de cinema da Universidade Federal Fluminense e é responsável pelo acervo da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM).

A produtora cinematográfica Cinédia virou assim uma restauradora e mantenedora da memória do cinema nacional. Alice criou o Instituto para Preservação da Memória do Cinema Brasileiro e pediu pessoalmente ao presidente da BR investimento para fazer as restaurações. O primeiro filme escolhido foi O Ébrio (Gilda de Abreu, 1946). Não por acaso, o longa ficou em cartaz por 35 anos e, até a estreia de Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976), era o filme de maior bilheteria do cinema nacional.

“É tudo muito caro. O restauro da película é feito quadro a quadro”, diz Hernani. Dos 23 filmes que foram danificados, 16 já estão restaurados. Dos sete filmes que estão em fase de conclusão do restauro, cinco deles serão exibidos em uma mostra de cinema ainda neste semestre.

São filmes da fase final da carreira do cineasta Moacyr Fenelon: Obrigado Doutor (1948), Estou Aí? (1949), Poeira de Estrelas (1948), Dominó Negro (1949) e A Inconveniência de Ser Esposa (1950). “O projeto agora é digitalizar o acervo e a parte documental e lançar DVDs com os filmes produzidos pela Cinédia”, revela Alice, que planeja para o próximo mês a abertura do casarão de Santa Teresa para a realização de cursos de cinema.

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