Cabeça a Prêmio – Limites tênues
Victor Martinez - 14.09.2010
Por Victor Martinez (@vectu)
Fronteiras. Geográficas, econômicas, sociais ou emocionais. Limites. Sejam eles entre Cerrado e Pantanal, Brasil e Bolívia, Terra e Ar, Riqueza e Pobreza, ou ainda entre Vida e Morte. Esses são os âmbitos visitados por Marco Ricca em Cabeça a Prêmio, o longa-metragem que chegou dia 20 de agosto nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campo Grande e Brasília.
Para estrear na direção de um longa-metragem, Marco Ricca se cercou de amigos: do roteirista aos protagonistas. O filme, que começou a ser produzido em 2007, foi baseado no livro de mesmo nome do também companheiro, o jornalista Marçal Aquino – escritor de Os Matadores e O Invasor, que virou filme em 2001 dirigido por Beto Brant e protagonizado por Marco Ricca.
Filmado em 8 semanas na Bolívia e em cidades do Mato Grosso do Sul, como Campo Grande, Corumbá, Bonito e Sidrolândia, o filme Cabeça a Prêmio foi uma produção audiovisual orçada em 4,3 milhões de reais que imprime a história da família Menezes. Miro (Fulvio Stefanini) e Abílio (Otávio Muller) são irmãos e prósperos pecuaristas do centro-oeste brasileiro que controlam uma rede de negócios ilícitos. Miro é casado com Jussara (Ana Braga) e é pai de Elaine (Alice Braga), que, por sua vez, mantém uma relação amorosa escondida com Denis (Daniel Hendler), o piloto da família. Para incrementar o drama, a família possui 2 capangas-matadores – figuras carimbadas nos livros de Aquino e que marcam o ritmo do filme.
Felipe Braga ficou responsável pela adaptação do livro para um roteiro de cinema. “O livro já está praticamente roteirizado, só que seria um filme muito longo”, explica o estreante diretor. Segundo Aquino, que escreveu o livro em 54 dias, “fidelidade só é bom no casamento”. E completa, “o Felipe desrespeitou o livro como eu desrespeito os livros que eu adapto, mas a essência está lá”. Houve poucas mudanças da história do livro para a do filme, mas uma que chama muita atenção foi a opção do diretor para que o piloto Denis fosse um gringo, por isso a interpretação do uruguaio Daniel Hendler (O Abraço Partido).
Segundo Ricca, o roteiro era transformado todo o tempo, inclusive durante as filmagens. De acordo com o elenco, a experiência do diretor como ator e a vivência nas locações catalisavam essas mudanças. “Nós olhávamos para o lado e tínhamos uma informação sobre a trama”, justificou o ator Cássio Gabus Mendes, que interpreta um dos capangas.
O filme ganha os telespectadores pelas atuações. São atores de grande calibre, vivendo homens angustiados, que marcam o roteiro – mérito já esperado de uma produção dirigida por um ator como Marco Ricca.
A história é contada com uma linguagem oscilante, que em momentos pontuais vibra e quebra os marasmos típicos do cerrado. Parece que o filme tem um ritmo angustiante, que luta para um final diferente às tragédias que de certa forma são aludidas no decorrer da história.
Os limites de todos os personagens são construídos desde o começo do filme e depois são colocados à prova: o amor do pai por uma filha; o da filha pelo seu pai; os negócios ilícitos da família; o caso proibido entre a filha do chefe e o empregado; e os valores pessoais latentes de matadores profissionais. É como se uma bomba-relógio estivesse para explodir. E explode!
Em uma das cenas iniciais entre os capangas, o personagem de Cássio Gabus Mendes fala para seu companheiro interpretado por Eduardo Moscovis: “A gente é bom, só que está no lado errado”. Esse diálogo, seguido pelo silêncio dos dois, é chave para entender o quão tênue são os limites dos quais esse filme pretende falar e justifica muito das cenas que também estão no limite entre o que é a estréia do diretor e a complexidade humana.












Bruno Huberman
14/09/2010
Maravilhosa e deslumbrante a critica!! Apenas não entendi os destaques em laranja… encomodam um pouco…
Priscilla Cavalieri
15/09/2010
muito boa a crítica, martinez!
Manuela Azenha
13/03/2011
“encomoda” incomoda também