Uísque, energético, quanta mulher boa
lucas.guratti - 28.10.2010
Por Lucas Guratti (@gurattilucas)
É apenas um piloto de uma série de TV, mas poderia muito bem ser um curta-metragem. E dos melhores. Tem morro, tem drogas e um personagem central contraditório, porém carismático. Os elementos perfeitos para um blockbuster nacional – Meirelles e Padilha que o digam. Mas, ao contrário do que se vê por aí, não há violência, política pública ou qualquer tipo de assistencialismo apelativo no enredo de 90 Dias Com Catra. No lugar da rajada de metralhadora, só o batidão dos tambores do funk carioca.
Mr. Catra, 41 anos de vida, é um dos ícones do funk carioca. Com uma voz rouca e grave, canta músicas com letras tão apelativas quanto divertidas, tão sujas quanto populares. Ele mesmo é um enigma. Diante das câmeras do diretor Rafael Mellin, Catra abre o filme quebrando as pernas de quem esperava por um clichê. “Eu tive uma infância rica”, afirma, enquanto prepara um cigarro de maconha. Entre uma e outra frase de efeito com moral duvidosa, o protagonista fala da sua relação com a música, desde um primeiro envolvimento com o rock até a descoberta do funk. As relações comerciais e a importância social do estilo para a sociedade carioca ficam bem evidentes no filme, que acaba, sem querer, virando um documento sociológico. A música de Mr. Catra desce o morro e move negros, pardos, amarelos, brancos, estrangeiros, homens e mulheres. Principalmente mulheres.
Em algum momento da história, o malandro carioca tradicional, aquele de boina e dos sambas do Bezerra da Silva, deixou de existir enquanto personagem da fauna brasileira. Um sujeito como o Catra pode ser considerado um substituto, um malandro moderno. Machista que só (apesar de não admitir) e controverso até os dentes, passa quase o tempo todo sem camisa, ostentando uma incrivelmente grossa corrente de ouro. Ao falar de seus relacionamentos, consegue ser romântico e cafajeste em questão de segundos. Para ele, assim como diz a letra de um de seus sucessos, “paixão é paixão, romance é romance, amor é amor e um ‘lance’ é um ‘lance’”. Catra sabe separar as coisas como ninguém. Tanto que, mulheres fixas, ele têm duas. Vinte e tantos filhos, espalhados por aí. Declarada e abertamente. Todo mundo sabe, inclusive elas. Fieis e dedicadas como qualquer esposa, elas fazem vista grossa para as outras inúmeras mulheres que passam pelos camarins dos shows do funkeiro. Uma relação que alia a modernidade e a liquidez dos novos tempos com a submissão conservadora dos haréns do Oriente Médio. Absurdo para você? Para ele – e para elas – é natural.
Indo além do conteúdo, que merece muito mais ser assistido do que comentado, o documentário é muito bem filmado, tem ótimas sacadas de edição e uma dinâmica bastante atraente. O personagem, seja ele totalmente real ou com uma pitada leve de fantasia, se constroi de forma crescente ao longo dos 27 minutos na tela. Não que eu seja fã de funk ou do Mr. Catra, mas o reality show é divertido de ver. Fazer o quê. Cada país tem o The Osbournes que merece.












Samuca Sholl
29/10/2010
Parceiro, como sempre genial. Excelente crítica pra um excelente curta. Isso é cultura popular brasileira. Catra é folclore contemporâneo. Um abraço e sucesso sempre.
ANDREIA MUNHOZ
29/11/2010
É REALMENTE FOLCLORE CONTEMPORANEO FAZ PARA DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA.
Valtinho Rege
30/12/2010
kkk…Amei a crítica e o programa…rs…