Ela era uma garota tímida
Victor Martinez - 24.02.2011
Por Victor Martinez (@vectu)
“Eu não chorei e nem voltei correndo para casa. Eu fiquei!”. Essa é uma das falas de Deborah Secco na cena do primeiro programa da personagem Raquel Pacheco, a menina da classe média paulistana que saiu de casa para se tornar mais tarde a Bruna Surfistinha, a garota de programa mais conhecida do Brasil.
Com 350 cópias, chega amanhã aos cinemas o filme Bruna Surfistinha, o primeiro longa do diretor Marcus Baldini. Além do já polêmico cotidiano de uma garota de programa, a história prende o espectador pela coragem e desapego de uma menina de 17 anos que não teve medo de abandonar a vida que muitos julgavam ideal para ganhar a rua sendo uma garota de programa.
Coragem e desapego que a atriz Deborah Secco também teve para assumir a protagonista dessa história. As inúmeras cenas de sexo em diversas posições eróticas com atores, que não eram os galãs que nós estamos acostumados a ver com atriz nas telenovelas, chegam a criar um determinado incômodo. Não há nada muito explícito, mas essas cenas estão em grande quantidade no filme. Propositalmente… afinal essa é a profissão da protagonista dessa história.
“Não tive problemas em fazer cenas de sexo, por que cada uma tem importância para mostrar o momento da Bruna”, comentou Secco. “Meu receio é que ficassem leve demais, quase uma apologia à prostituição ou parecendo um conto de fadas. Fazer um filme sem cenas fortes seria um grande erro”, completou. Sentiu a postura da própria atriz para explicar essa opção do diretor? Incrível, né?!
Na coletiva de imprensa, a atriz confessou que assumir esse papel foi um desafio antes mesmo de ser escalada. E tudo por causa do diretor. “Tinha uma certa resistência porque a Deborah é uma atriz muito famosa, muito conhecida por sua sensualidade. E, para mim, a personagem tem uma sensualidade quase canhestra. É uma menina tímida, que parece fazer isso só para conseguir aceitação”, explicou Baldini.
Em réplica, Deborah se explicou. “Quando soube da resistência do Baldini, que ele tinha medo de estar usando a sensualidade da Deborah para vender o filme, eu fiquei feliz. Ele é um diretor inteligente… é com ele mesmo que eu quero trabalhar. Ele quer a Deborah Secco atriz”.
Sobre esse assunto, o diretor e a atriz começaram a contar a história do dia que se encontraram para conversar cara a cara sobre o roteiro quase finalizado do filme na própria casa da atriz. Na ocasião, Baldini comentou uma possível dificuldade nas filmagens que era a da Deborah assumir a personagem Raquel aos 17 anos. Nesse instante, a atriz foi para o quarto e voltou para a conversa, usando uma camisola de criança com o cabelo despenteado. “Era uma criança”, contou Baldini dando risada. Foi aí que ela ganhou o papel e esse figurino acabou vestindo a personagem na primeira cena do filme.
Na rua e no set
O filme não é uma biografia de Raquel Pacheco… é um filme de ficção baseado em uma história real, relatada no livro O Doce Veneno do Escorpião, que por sua vez foi escrito por Bruna Surfistinha e Jorge Tarquini. Baldini leu o livro, comprou os direitos autorais e começou a fazer o roteiro com algumas alterações.
A verdadeira Bruna Surfistinha participa do filme, como uma hostess de um restaurante. A participação “foi uma espécie de agradecimento e homenagem a ela, que cedeu a sua história de vida”, explicou Baldini. No entanto, a atriz Deborah Secco não leu o livro e não teve nenhum contato com a Bruna antes das filmagens. “Queríamos que a personagem saísse de dentro para fora”, completou Baldini.
Mais do que qualquer outra coisa, o filme é um soco sobre os nossos julgamentos morais. Talvez o que seja mais errado para nós é exatamente o que há de mais necessário para alguns crescerem.
Se os filmes brasileiros de grande bilheteria se dividiam em produções de apelo social como Tropa de Elite ou comédias como Se eu Fosse Você, parece que agora um novo blockbuster está surgindo nesse cenário. Nem tão dramático, nem tão engraçado… intrínseco e genuinamente brasileiro. Afinal, que país no mundo seria capaz de criar uma menina com uma repulsa de sua classe social, capaz de abandonar tudo para ir para a rua se prostituir, se promover em diferentes mídias, e se orgulhar de tudo isso, colocando sua cara a tapa. E ela nem era uma garota pop na escola.












Comentários
Não há comentários no momento.