Tela Brasil – O portal de formação e informação sobre o universo audiovisual » Blog Archive » O estranho mundo de Gaga

O estranho mundo de Gaga

lucas.guratti - 09.03.2011

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Como sempre acontece quando se trata de Lady Gaga, muito foi falado nos últimos dias sobre o novo videoclipe da mais nova e extravagante musa do pop. São notáveis, e até admiráveis, suas sucessivas tentativas de chocar e aparecer – claro, não há astro que não se destaque na multidão. O clipe de Born This Way, que já acumula mais de 18 milhões de visualizações no YouTube, é mais uma dessas tentativas, insistentes, que acabam deixando o estatuto de tentativa para trás e revelando-se belíssimos acertos. Sem dúvida, um dos melhores clipes que eu vi na vida, daquelas peças que a gente precisa ver uma, duas, três vezes até pegar o espírito da coisa e, quando finalmente pega, fica num estado entre a hipnose e o êxtase. Mérito da artista e do diretor, Nick Knight. Posso estar enganado, mas esse filme tem tudo pra ser o Thriller desta década.

Nunca fui fã de música pop, apesar de ser admirador incondicional de Michael Jackson e admitir cantar Purple Rain, do Prince, no chuveiro. Mesmo assim, reconheço e sinto na pele o poder deste movimento. Aliás, eu duvido que haja alguém que seja completamente imune às batidas e construções de ícones como Madonna e Gaga. Os refrões grudam na mente como um chiclete, enquanto suas performances, por vezes estranhíssimas, dão aquela sensação de gratitude. Somos gratos por aquela excentricidade, aquela originalidade. Originalidade é um atributo costumeiramente atribuido a Lady Gaga, tanto pelo publico quanto pela crítica. Assim como eles, eu também não duvido da capacidade criativa da diva. No entanto, tenho o dever de dizer que, sem perder seu mérito, ela bebe em muitas fontes. E isso fica ainda mais claro neste ultimo clipe. O que não é de todo mal, pois não apenas desmistifica a artista, mas também faz deste vídeo uma obra cinematográfica que transcende os limites da programação da MTV.

O clipe começa com um take classico, carregado de referências, logo de cara. Na minha cabeça, na hora, veio 2001, de Stanley Kubrick, com aquela coisa toda do universo e da gênese. Até a forma como o texto que antecede a música é narrado é puro Kubrick – os mais nerds podem dizer que há também um quê de Star Wars. O prisma que aparece logo na primeira cena também me trouxe à tona a clássica capa do disco Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd. Isso tudo só nos primeiros dez segundos. O que se segue é um show de semiótica, com pontos de fortíssima influência da cultura e do cinema norte-americano das décadas de 70 e 80. Entre o cult e o thrash, a fotografia, cheia de exageros, imprime na tela um jogo de luzes brancas e duras, saltadas em um cenário predominantemente escuro – tudo muito parecido com os elementos usados em Laranja Mecânica, principalmente nas cenas que se passam na leiteria, com aqueles manequins brancos e tenebrosos na composição (e não é que Kubrick aparece de novo?). Os jogos de câmera, com efeitos lisérgicos como o caleidoscópio, e as temáticas e apelos que transitam entre o sexual, o sombrio e o escatológico, também traduzem as referências dessas épocas.

A maquiagem é também um dos pontos fortes de Born This Way. Gaga se transforma em mil personagens ao longo do filme, contando uma história pouco linear e extremamente alucinante ao encarnar cada um deles. Em alguns momentos, beira o clichê e parece insistir em ficar feia – um inominável híbrido de Cher, Boy George, Marilyn Manson e Etevaldo, personagem do Castelo Rá-Tim-Bum. Em outros, é brilhante, quando aparece de smoking, aplique e maquiagem de caveira, como se tivesse acabado de sair de um filme da trevosa cinematografia de Tim Burton – curiosamente, é onde aparece mais bonita no vídeo.

Se Lady Gaga será definitivamente a nova Madonna, o tempo dirá. Aliás, as coreografias e os dentes da frente espaçados com os quais a cantora aparece no final são de clara inspiração na rainha do pop, intencional ou ocasionalmente. O que fica mais do que claro é que Gaga, apesar de não ser o poço de originalidade ventilado por aí (e quem é?), é fonte inesgotável de criatividade e repertório. Fato consumado é que ela já deixou sua marca nesta geração. Por este clipe e por muitas outras coisas, promete deixar sua marca também nas próximas. Como diz a letra da música, she is on the right track, baby.

Comentários

Não há comentários no momento.

Envie seu comentário