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Os olhos de quem vê

lucas.guratti - 21.03.2011

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Pra mim, é muito difícil escrever sobre Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. E é difícil por dois motivos. O primeiro e principal deles é porque eu gostei bastante do filme. Já tinha gostado bastante de Café Com Leite, também dirigido por Ribeiro, mas em nada se compara a como me senti em relação a este curta. Quando você não gosta de uma obra, fica fácil expor sua opinião: é só soltar a mão, como diz o jargão dos escribas, e descer a lenha, como diz o jargão dos… lenhadores. É muito fácil falar mal. Ou, ainda, quando você gosta um pouco ou é indiferente, o filme também não oferece grandes desafios. Uma pincelada de elogios aqui, uma crítica ácida ali – aquela coisa rotineira, sem fortes emoções. Problema, pra mim, é gostar demais – pois é, nem eu me entendo.

O segundo motivo que me dá certo bloqueio pra escrever sobre este curta, com menor importância e intensidade do que o primeiro, é que um dos atores, o Fábio Audi, é um conhecido meu. Ele estudou comigo durante o primeiro semestre da faculdade de publicidade, e chegamos até a fazer um trabalho juntos. O trabalho era de semiótica e era em trio – ele, uma amiga minha e eu. Na época, pelo que eu me lembro, ele já estudava teatro, e apesar de ter dado tudo certo com o trabalho, tava na cara que publicidade não era a praia dele. Quase cinco anos passaram, eu virei redator de agência, essa minha amiga virou uma workaholic insandecida de uma multinacional (beijo, Camis!) e ele, quem diria, virou ator profissional. E dos ótimos. Por isso a responsabilidade e o certo pudor em falar do filme – nada mais do que estranhamento pela “novidade” da situação.

Voltando a falar do motivo número um, o filme, na minha humilde opinião, é um dos melhores curtas já recomendados aqui no TelaBr – se não é o melhor. Uma história simples, criativa, bonita e bem contada, combinação difícil de encontrar. Eu Não Quero Voltar Sozinho não é filme de butique, não é piegas, mesmo correndo um risco enorme de ser. Isso porque o curta aborda dois temas que ainda (pois é, ainda) são considerados tabus pela sociedade hipócrita – “ah, imagine, eu não vejo mal algum, não sou preconceituoso”, é o que muitos vão dizer. Sei. Outros, ainda vão dizer que é um filme polêmico (bocejo), naquela velha opinião formada sobre tudo. A questão é: polêmico pra quem, cara-pálida? De qualquer maneira, foi desse “perigo” iminente que nasceu o filme e o brilhantismo do roteiro.

O filme conta a história de três jovens, dois meninos e uma menina, amigos inseparáveis na escola e fora dela. Três adolescentes como devem ser, cheios de dúvidas, inseguranças e crises. Cheios de vida, de verdade. Nada muito grave, nada complicado demais. Um deles, Leonardo, é deficiente visual. Todo santo dia, Giovana, sua melhor amiga desde sempre, o acompanha até a porta de casa. Gabriel, interpretado pelo Fábio Audi, chega depois, vindo do interior, e logo se aproxima da dupla. Principalmente de Leonardo. É daí que se desenlaça a trama – uma história atemporal, inclusive estetiacamente, com uso de cores pasteis e desbotadas, o que permite que nos transportemos a qualquer época, sem perder a atualidade. Toda a construção, a delicadeza das cenas, a cadência dos momentos e a naturalidade dos atores faz deste um curta sobre amor, amizade e respeito – todo o respeito e a normalidade com que qualquer pessoa e história de vida merece. Do jeito que é, sem utopias. É um belo de um tapa na cara de quem enxerga superficialmente o que é profundo e exageradamente o que é meramente natural, comum e igualmente valoroso. Um filme para todos. Como poucos são.

P.s.: Não sei se você vai ler isso, Audi, mas eu realmente fiquei feliz e impressionado pelo seu sucesso e pelo seu talento. Parabéns, cara. Pra você, pro Ghilherme Lobo e pra Tess Amorim.

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