Uma lição de pedra
lucas.guratti - 29.03.2011
Por Edilamar Galvão, para a Revista Beta
Para o filósofo Immanuel Kant (século XVIII), o conceito não nos dá acesso à existência. Conceitos e ideias podem, por assim dizer, “emanar” da estrutura interna da razão quando, diante da realidade empírica e fenomênica do mundo, ela, a razão, começa a “colocar junto”, a “associar” fenômenos em termos, por exemplo, de causa e efeito. Assim, a razão começa a “sintetizar” e criar ideias e conceitos para os fenômenos que “existem”.
Mas, numa inversão de papéis, a razão deseja “deduzir” a existência dos próprios conceitos que é capaz de gerar. Aqui, começa a ilusão: a necessidade de uma ideia, ou mesmo a possibilidade dela, não significa sua realidade objetiva. A chamada revolução copernicana, feita por Kant na filosofia, pode ser compreendida por sua consequência teológica: o “fato” de sermos capazes de pensar a “ideia” de Deus — de acharmos, inclusive, necessária a existência dessa ideia — não nos autoriza a afirmar uma realidade objetiva que corresponda a ela. Nós simplesmente não a conhecemos “verdadeiramente”, pois não é possível que o infinito se apresente a um ser finito. Ou seja, essa “ideia”, literalmente, não cabe na nossa realidade empírica. Por isso, pensar pode ser também uma dor. No entanto, segundo Kant, a verdadeira arte “ousa” tornar sensíveis ideias estéticas. Apresenta à sensibilidade imagens para as quais a razão não consegue encontrar representação e entendimento. E, nesse movimento, ela nos “alarga a alma”.
Esse sumário preâmbulo kantiano é uma tentativa de apontar para a “simplicidade” de Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009). Quase todas as imagens foram “colhidas” pelos diretores em 1999, para outro projeto, e arquivadas por eles por conterem beleza e poeticidade que “pediam”, digamos, sua própria existência.
Poderíamos não saber das condições de realização do filme, mas sabê-lo intensifica o significado arquetípico dessas paisagens. Aqui, no início eram as imagens. Era preciso encontrar um roteiro para elas. Uma história. Algo que lhes desse “sentido”. E, nesse “sentido”, devolvesse a elas seu espanto e beleza originais.
Foi preciso criar, então, um homem para essas paisagens. Criaram José Renato. Geólogo. Câmera e narrativa em primeira pessoa. Ele viaja por que precisa. Entende de pedras. Procura o melhor percurso para as águas. Mede e observa a natureza e os homens que serão desalojados pela transposição do rio. Mas essa paisagem, antes objeto de uma descrição científica, passa a ser metáfora da devastação da perda amorosa. Só mesmo naquele calor que faz a estrada tremer no horizonte para entender, num suspiro, o que é sentir “essa saudade da porra”. Diante da estrada esburacada, pensa em “perder-se num labirinto sem saída”. “Não quero que essa viagem acabe nunca”, diz.
A solidão, a idealização do amor – esse infinito que sempre acaba –, o sexo fácil no motel barato e a vastidão do mundo não são simplesmente conceitos ou ideias abstratas na viagem desse geólogo, que mede e observa a idade e a dureza das pedras.
O sertão que José Renato atravessa é um sertão que atravessa a alma. O sertão fora que já é dentro. Como a “segunda” Educação pela Pedra de João Cabral: “No sertão a pedra não sabe lecionar,/ e se lecionasse não ensinaria nada;/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra,/ uma pedra de nascença, entranha a alma”.
É essa a lição de pedra do geólogo José Renato.












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