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Peru, Nebraska

lucas.guratti - 08.07.2011

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Imagine a cena: um grupo de um país latinoamericano chega a uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, em uma excursão. Como todo povo latino, chegam em festa e despertam a desconfiança dos menos de quinhentos habitantes do lugar. A cidade não oferece nenhuma atração turística, e os visitantes também não estão ali para tratar de negócios. O que eles querem é promover um intercâmbio cultural. Forçado. Sem prévio aviso. Tem tudo pra dar errado, certo? Não. No fim das contas, tudo corre bem e os turistas são muito bem recebidos pelos típicos yankees do interior, conservadores que só. Se fosse ficção, seria um bonito final feliz, imaginado por um roteirista. Mas como se trata de um documentário, tudo deu certo graças ao elo que une esses dois povos tão distintos. Identidade, meus amigos.

O caso é que essa história aconteceu de verdade e foi registrada em um belíssimo filme. O povo latino é o peruano, e a cidade onde tudo acontece é a pequeníssima Peru, no estado de Nebraska. O povo do Peru, o país, interagindo com o povo de Peru, a cidade. A iniciativa é do próprio governo peruano, numa tentativa muito bem sucedida de espalhar e valorizar sua cultura nacional. A lógica é muito simples. No dia a dia, o tal nacionalismo acaba se perdendo, por culpa e consequência de incontáveis fatores explícitos e implícitos. São os problemas que toda sociedade enfrenta, principalmente as que vivem com as dificuldades do terceiro-mundo; são, também, os lapsos que o piloto automático da rotina proporciona. Quando se tem fome, sede, frio, o povo se revolta contra a pátria, como um filho maltratado que foge de casa e abandona a mãe. E aí, já sabe. O orgulho nacional só se manifesta quando o ego é provocado. O brasileiro, por exemplo, adora meter o pau no Brasil. Mas experimente um gringo vir falar que nossa pátria-mãe-gentil só tem bunda, caipirinha e animais selvagens andando no meio da rua pra ver o que é bom pra tosse. O patriotismo e o nacionalismo moram nas feridas mais abertas, mais desprotegidas, e só se manifestam quando os dedos alheios as cutucam.

O tempo todo, durante o filme, paira uma névoa de dúvida no ar. O espectador pode desconfiar, em alguns momentos, que tudo aquilo que vai se imprimindo na tela não é assim tão verdadeiro quanto um documentário deveria ser. Nunca saberemos a verdade. Fica claro, no entanto, que o filme se desenrola de uma forma muito natural e organizada. A linearidade é uma constante, com momentos e emoções pouco oscilantes e sem um grande clímax a ser destacado. E boa parte da credibilidade e da qualidade da produção se devem a essa forma linear de contar as coisas, sem precisar de muita legenda. Mas não confunda organização com chatice: a trama é toda pautada pelo humor e pelas situações curiosas e engraçadas que o choque cultural proporciona. No fim das contas, o que se nota, do começo ao fim, é que o documentário é uma boa sacada e uma bela iniciativa governamental. Mais ainda, o que se percebe é que cada vez mais são necessários chacoalhões como esse pra que os povos acordem e se dêem conta de suas identidades e importâncias. Coisa que, no Brasil, acontece de quatro em quatro anos e olhe lá.

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