Um novo filme
lucas.guratti - 26.07.2011
Por Cacá Diegues, para a Revista Beta
No verão de 1961-62, o Centro Popular de Cultura da UNE se preparava para realizar sua primeira experiência cinematográfica. Imaginado e coordenado por Leon Hirszman, o projeto era fazer um filme em cinco episódios, dirigidos por jovens cineastas universitários que animavam cineclubes, começavam a realizar seus primeiros curta-metragens e se reuniam nas sessões da Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro. O filme chamaria Cinco Vezes Favela, um dos primeiros (depois dos filmes de Nelson Pereira dos Santos) a tematizar a favela no cinema brasileiro, tornando-se um dos pilares do que viria a ser chamado de Cinema Novo.
Cerca de trinta anos depois, no início da década de 1990, comecei a entrar em contato com ONGs e organizações culturais de favelas cariocas que se interessavam pelo audiovisual. Primeiro, por meio de palestras e projeções de filmes; depois, criando e participando de cursos de cinema em diferentes comunidades. Nesse período, a partir de Veja esta Canção, realizado em 1993, comecei a usar atores e técnicos formados nessas comunidades, até conseguir empregar mais de vinte deles em O Maior Amor do Mundo, de 2005.
Durante todos esses anos, acompanhei de perto o desenvolvimento de uma geração de jovens cineastas moradores de favelas e testemunhei o surgimento de alguns outros mais novos. Hoje, me parece absolutamente natural que, logo depois da experiência com muitos deles, me tenha ocorrido a ideia de produzir um novo filme, no mesmo formato do Cinco Vezes Favela original. Só que, agora, totalmente concebido, escrito e realizado por eles mesmos.
Em 2007, organizamos cinco oficinas de roteiro, em cinco comunidades diferentes, apoiadas por ONGs e organizações culturais locais. Essas oficinas, realizadas na Maré (Observatório de Favelas), Vidigal (Nós do Morro), Cidade de Deus (CUFA), Parada de Lucas (AfroReggae) e Lapa (Cidadela/Cinemaneiro), foram frequentadas por cerca de 250 jovens. Cada um deles apresentava, em cada oficina, quantos argumentos desejasse e, depois de análise conjunta, eles votavam na história que seria desenvolvida como roteiro. Coordenadas pelo professor Rafael Dragaud, cada oficina desenvolveu, então, seu roteiro coletivamente. Ao fim desse processo, que durou alguns meses, escolhemos os diretores de cada episódio do filme, com base em seu currículo e aproveitamento nas oficinas.
Com roteiros prontos, diretores definidos e orçamento fechado, partimos, eu e Renata de Almeida Magalhães, em busca dos recursos necessários para a realização de um filme brasileiro de porte médio, dentro das mesmas condições que tenho para fazer meus próprios trabalhos. No início de 2009, começamos as oficinas técnicas preparatórias para a produção do filme. Mais de 600 jovens moradores de favelas cariocas se inscreveram para essas oficinas, divididas em departamentos, conforme o interesse dos inscritos — direção, produção, fotografia, arte e figurino, edição e interpretação. Diante da impossibilidade de dar aula para tamanho número de alunos, fizemos exaustiva seleção de cerca de 240 dos inscritos que, durante três meses, participaram de cursos e palestras de gente como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Fernando Meirelles, Walter Salles, João Moreira Salles, Walter Lima Jr., Daniel Filho e outros. Logo em seguida, iniciamos as filmagens de 5xFavela, Agora por Nós Mesmos.
Esse não foi um projeto paternalista ou uma ação de caridade. Desde o seu início, eu fazia questão de repetir aos interessados um mantra que se tornou recorrente durante todo o processo: não queremos elogio porque somos pobres, queremos elogio pela qualidade do que fazemos. Não se trata de um audiovisual de fim de curso ou um jogo amador para distrair a juventude favelada. Trata-se de fazer um filme dentro da economia formal do cinema brasileiro, com capacidade de ser distribuído pelos cinemas do país, trazendo para fora do gueto uma visão que esses jovens têm deles. O filme foi elaborado em oficinas de criação mesmos, como porta-vozes de seus próprios sentimentos e conceitos, uma contribuição para a renovação e a evolução do cinema brasileiro. Uma invasão do centro pela margem.
A seleção do filme para a mostra oficial do Festival de Cannes deste ano e a repercussão crítica que lá obteve são apenas o primeiro sinal do que será uma grande surpresa para todos, de uma emocionante aventura da qual muito me orgulho de ter feito parte. 5xFavela, Agora por Nós Mesmos é um daqueles projetos que, como dizia François Truffaut, justificam a existência do cinema.












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