O coração do cinema
lucas.guratti - 01.09.2011
Por Michael Wahrmann, para a Revista BETA
Entre as mais de 400 produções exibidas no 21° Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, tentei encontrar as vacas gordas que entraram no matadouro da Vila Mariana. Só que algumas emagreceram e muitas das magras engordaram de forma surpreendente, transformando-se em sonho gastronômico para um carnívoro de curtas-metragens.
E não, não consegui experimentar todas. Muitas ficaram pendentes e algumas nem quero provar. Nas poucas linhas que me permitem aqui, deixo uma breve lista de filmes que me fizeram amar mais o cinema, que me fizeram questionar meus caminhos, que me fizeram duvidar de tudo o que sei. Filmes que cumpriram seu papel de curtas-metragens: livres, autorais, independentes e apaixonados.
Haruo Ohara, de Rodrigo Grota, retratou a perfeição cinematográfica com seu talentoso grupo da Kinoarte. É um filme de um cinéfilo obcecado e detalhista, que ama o cinema tanto quanto admira os japoneses. “O cinema diz, mostra, apresenta, mas necessariamente não verbaliza, não racionaliza”, resume Grota a respeito de seu filme, que apresenta um distanciado e ao mesmo tempo amoroso olhar.
O detalhe e a obsessão existem também em Handebol, de Anita Rocha da Silveira, que apresenta os planos e movimentos mais lindos dos últimos tempos. “Gus Van Sant foi uma referência estética muito forte”, explica a diretora sobre o fato de ter ganhado o prêmio de Melhor Filme Elephant, do Cachaça CinemaClube. Ela prefere ginástica olímpi- ca e patinação artística.
Em Bailão, Marcelo Caetano conta e admira sua história com tanto amor que dá vontade de abraçá-lo e chorar em seu ombro, es- perando que ele também nos ame. “Sou um bailarino frustrado e o Bailão foi uma excelente oportunidade para me reconciliar com a dança. Espero que, quando eu for velho, os gays idosos possam dançar com seus parceiros ao lado de seus amigos heteros.” Não falei que dá vontade de abraçá-lo?
Continuei dançando com outro curta surpreendente, Faço de Mim o que Quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, que consegue re- tratar o movimento brega sem ser brega e sem julgar, o que, à primeira vista, parece uma tarefa quase impossível. “O fashion é passageiro, mas o brega junta o alegre ao pro- fundo e fica para sempre”, define Sérgio, que “não tá nem aí”.
Sarcófago, de Daniel Lisboa, é um documentário que, não fosse pelos depoimentos, ficção angustiante, quase um thriller existencialista. Deixou minha amiga Lara com cara de quem acabou de ver um fantasma.
Falando em fantasmas, um dos meus curtas favoritos é Fantasmas, de André Novais Oliveira, que pertence ao segundo grupo de vacas: as vacas magras que conseguem explodir de gordura na tela do cinema. Feito com apenas R$ 50,00, o curta é a síntese do cinema. É o cinema que deve ser feito em 2010. Inteligente, surpreendente, simples, digital, de baixo orçamento e, acima de tudo, corajoso. Sem pretensão, ele é sincero e enfrenta os fantasmas do cinema que explodem na nossa cara e colocam a indústria inteira em xeque.
Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro, revela, entre todas as suas camadas, que a sinceridade nem sempre precisa de ensaios. “A vida de Barbot e a de Gatto foram o ensaio para o que está impresso na tela”, diz o diretor.
Em Carreto, de Marília Hughes e Cláudio Marques, a perfeita simplicidade e a essência cinematográfica re- velam um engajamento político e social corajoso, coisa rara nos mais de 50 curtas exibidos na Mostra Brasil. “Esses processos mencionados (racismo, diferenças etc.) são gritantes, mas negados historicamente e de forma sistemática”, denuncia o casal.
Antes que me cortem, encerro rapidamente minha lista provisória e incompleta com a bela, “imperfeita” e dedicada animação Izamara, de Diogo Hayashi, e com alguns curtas que não são daqui. Curtas deslocados, atemporais, que transitam entre a memória, o sonho, o absurdo e um futuro brilhante – Sebo, de Lucas Cassales e Alexandre Kumpinski, Matryoshka, de Salomão Santana, Gaveta, de Richard Tavares, e um último e deslumbrante experimento: Flash Happy Society, de Guto Parente, que, talvez mais do que qualquer outro curta, nos ilumina.












Comentários
Não há comentários no momento.