Tela Brasil – O portal de formação e informação sobre o universo audiovisual » Blog Archive » As flores reais são eternas

As flores reais são eternas

lucas.guratti - 22.03.2012

 

Curta filmado em Super-8 traz à tona a temática das relações humanas no espaço urbano

 

Por Caio Zerbini

 

O assunto do documentário Flores em Vida, dirigido por Rodrigo T. Marques e Eduardo Consonni, é um paradoxo: uma floricultura que não vende flores. Por meio de um mergulho na rotina de Lazara Crystal, dona da floricultura, o curta sugere reflexões profundas acerca do tempo e do espaço.

Lazara mora na casa da filha, mas passa os dias em sua pequena floricultura no meio de uma praça, em frente a uma igreja. Essa descrição sugere um cenário típico de uma pequena cidade do interior em alguma época distante. Lazara tem mais de 90 anos; a floriculturajá serviu como negócio, mas não vende mais flores e está caindo aos pedaços. O padre da igreja pressiona as autoridades para tirarem Lazara de lá. Somam-se a isso o frenesi dos transeuntes e o barulho ensurdecedor e constante do trânsito. Finalmente, os fregueses que entram à procura de flores saem frustrados e perplexos por não poderem comprá-las. A inadequação da condição de Lazara é tão gritante que ela mesmo a questiona. Mesmo diante de toda essa hostilidade, é na floricultura que Lazara passa seus dias, pois é lá que se sente em casa.

Ainda que muitos se incomodem com a presença de Lazara, outros muitos nem a percebam. A “vovó”, como é chamada por alguns frequentadores da praça, se tornou uma figura conhecida, e não são raros os visitantes que entram para bater um papo com ela, tratando-a de forma íntima e fraterna.

Em termos cinematográficos, o grande mérito de Flores em Vida é propor uma linguagem completamente inserida na temática do filme. A opção dos diretores por filmar em Super-8 escancara a resistência oscilante de Lazara, que insiste em remar contra a corrente apesar de sua inconformidade com a sociedade a sua volta e seus avanços tecnológicos. Em viagem a Berlim, Rodrigo comprou uma Super-8, mas, depois de trinta segundos rodando, a câmera parou de funcionar. Os diretores levaram-na para o conserto e foi constatado que um dente da engrenagem estava quebrado. O senhor da lojinha que diagnosticou o problema disse aos diretores que o único sujeito que consertava essa engrenagem havia morrido. Para compensar, emprestou a Super-8 que uma cliente levara para consertar, mas nunca se dera ao trabalho de ir buscar. O simpático e solidário velhinho não exigiu nenhum tipo de contrato formal pelo empréstimo e a câmera esquecida foi usada para rodar o filme.

Os diretores tinham apenas cinco rolinhos de negativo, o que totalizava cerca de quinze minutos de material bruto. Isso fez com que optassem por uma montagem peculiar, sem a preocupação de sincronizar o áudio das falas de Lazara com as imagens correspondentes. Essa montagem, porém, não faz com que o documentário perca harmonia ou ritmo. Pelo contrário, torna o filme ainda mais instigante.

Vale registrar que, quando esta matéria foi escrita, a floricultura já havia sido demolida e a última notícia que Rodrigo e Eduardo tiveram de Lazara foi de que ela estava internada num asilo em Piracicaba, sua cidade natal. Os últimos suspiros de resistência da “vovó”, no entanto, estão eternizados. Numa película de 8 milímetros.

Comentários

  • www.taemchoque.wordpress.com

    28/03/2012

    Onde consigo assistir o filme?

  • Rodrigo T. Marques

    03/04/2012

    Olá, vc pode assistir o filme no link abaixo:
    https://vimeo.com/12311237
    ou acessando o nosso site:
    http://www.complo.tv
    Boa sessão!
    Abrs

Envie seu comentário