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Jazz and roll

lucas.guratti - 22.05.2012

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Já escrevi nesta humilde coluna sobre um dos clipes mais emblemáticos e transgressores da história do rock: We’re Not Gonna Take It, o grande hino do glam rock dos esquisitões do Twisted Sister. Volto hoje a falar de uma pérola videoclíptica recém lançada, obra do líder do Twisted, Dee Snider.

Muito mais comportado e natural do que em seus tempo áureos nos anos 80, quando parecia uma drag queen horripilante, Snider aparece com os cabelos compridos (que um dia foram amarelo gema e hoje estão completamente completamente brancos) presos em um rabo de cavalo, trajes elegantes e óculos escuros. Nosso band leader adentra o palco de um teatro caindo aos pedaços e encontra uma plateia bem peculiar, pra dizer o mínimo: bêbados, mendigos, um casal conservador e um tarado o aguardam sem esboçar a menor expectativa.

Dois caras na primeira fila, provavelmente fãs do Twisted nos anos 80, parecem animados, mas logo se decepcionam quando Snider começa a cantar com uma voz grave as primeiras palavras de Mack The Knife, um sucesso do jazz e que ganhou o mundo na voz de gente como Frank Sinatra e Louis Armstrong. Jazz? Sim, pois é. Uma big band, cheia de metais e elegância, acompanha Snider em cada nota. Tudo parece diferente e a escassa plateia se mostra cansada do que assiste. O espectador do YouTube, ao menos no meu caso, se diverte. Até que, enfim, o grande momento acontece e o tão esperado rock n’ roll explode. É de arrepiar as barbas de qualquer roqueiro que se preze, e eu me incluo na lista (apesar de não ter uma barba que se preze).

O filme é uma grande sátira e um tapa bem humorado na cara dos críticos de música da nova geração. Estética e conceitualmente, do aspecto decadente do cenário – lembra um pouco o Teatro Silêncio, de Cidade dos Sonhos, filme do David Lynch, só que bem menos sombrio –  passando pela escolha do casting, pela edição e pela direção de arte e fotografia com cores e luzes frias, tudo no filme trabalha para reforçar o lado satírico do clipe. Uma crítica a um sistema musical que prende e renega seus astros. Uma autocrítica de Snider, também, por quem sabe ter sucumbido a isso até hoje. Mais do que tudo isso, um grito de liberdade vindo de uma das mais poderosas vozes do rock, sem medo de manchar sua imagem e descer do pedestal da idolatria. Nas entrelinhas, ele diz, veementemente, para quem quiser ouvir: sou mais do que tudo aquilo que já fui, estou aqui, estou vivo. Enquanto tiverem dois ou mais gatos pingados chacoalhando a cabeça na plateia, o rock também estará vivo. Até agora, foram 74.715.

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