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Nas entrelinhas

lucas.guratti - 08.06.2012

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Há muito tempo não tinha tanta dificuldade pra encontrar um bom curta nacional pra indicar aqui. Como estava sem ideias, fui procurando pela internet, sem rumo. Assisti a uns três que tinham pompa de bons filmes, mas não passavam de porcarias bem produzidas. Quando estava quase entregando os pontos, finalmente encontrei um que prestava. E como prestava. Um filme de amor, assim, curto e grosso, do título ao fim: L, de Thaís Fujinaga.

O enredo da história, parrudo, consistente, cheio de meandros e subtextos, é de longe o melhor do filme.  A história conta a vida de Teté ou L, como é chamada pelos colegas de natação, uma menina que odeia ter pés grandes (o apelido vem daí) e, por isso, se arma como pode pra evitar olhares e comentários maldosos. O universo e as questões que envolvem a protagonista,  lindamente interpretada pela jovem Sofia Ferreira, ficam nas entrelinhas. A melancolia do pai e da menina, provavelmente fruto de uma ausência traumática da figura da mãe, as marcas fortes no comportamento dos personagens e até mesmo o provável bullying sofrido pela jovem: com brilhantismo e muita sensibilidade, a diretora consegue fazer com que tudo isso apareça com clareza e as conclusões se formem na mente do espectador, ainda que de forma sutil, sem esclarecer ou escancarar nada em nenhum momento.

O texto e o roteiro são ritmados e o filme não se arrasta em nenhum momento. É tudo na medida certa: nem mais, nem menos. Tem um humor sutil, ácido, de certa forma, com passagens impagáveis; Tem dramaticidade perfeita, sendo denso e firme quando tem que ser; Cenas fortes tomam conta do clímax da doce história de amor infantil, mas sem chocar o espectador – até o incômodo parece ter sido minuciosamente calculado. Quanto à estética da produção, também não há nada pra tirar ou colocar. A saturação das cores, a boa dose de sobriedade empregada na fotografia e a edição dão o toque de Midas que transforma uma excelente história num filme que é puro ouro. Como todo metal precioso, o melhor dele se esconde nas rochas, nas sombras, e deve ser procurado em cada detalhe, em cada segundo de exibição. Pode começar a garimpar.

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