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Três quartos de segundo

lucas.guratti - 20.06.2012

Por Lucas Guratti (@gurattilucas)

Na bibliografia das metáforas e analogias, não faltam as que falam sobre o tempo. Tic, tac, o barulho do relógio, aquele que pauta nossa vida antes, durante e depois. O senhor da razão, aquele que tudo cura, que passa, que não passa, que corre, que voa. Décadas, anos, meses, dias, segundos. Até aqui, por exemplo, foram uns vinte e tantos segundos que você jogou fora lendo sobre nada, ou quase nada. Lendo sobre algo fluido, subjetivo e, pior, sobre algo que não é passível de discussão. O tempo só é o que é e pronto – não se pode fugir ou contestar, apenas conviver com o fato de que ele passa, seja na velocidade que for, e tem que ser aproveitado do jeito que dá. Sim, porque se colocarmos na balança o quanto desperdiçamos de nossa existência fazendo coisas que não são exatamente proveitosas, prazeirosas ou produtivas, ficaremos extremamente deprimidos. Até aqui, eu e você desperdiçamos cerca de quarenta e cinco segundos. Sejamos mais objetivos e passemos para o próximo parágrafo.

O curta Loop, escrito, dirigido e representado por Carlos Gregório, também fala sobre o tempo. De um jeito muito diferente das outras metáforas e filmes que dissertam sobre o tema. O filme parte de um clichê, a máquina do tempo, e de um conflito básico de todos aqueles que enfrentam a temática: os momentos que não voltam mais. Justamente o desperdício do tempo, que é o que justifica a incessante busca pela construção de uma máquina que possibilite mudanças e novos aproveitamentos daquilo que já passou, é retratado de uma maneira única, quando o feitiço vira contra o feiticeiro.

Se analisarmos o curta pela ótica da produção, não posso dizer que o filme é lá grande coisa. Não é mal feito, longe disso, mas peca em alguns detalhes, como na dinâmica e na disposição das imagens mostradas no começo e no bom gosto de parte da cenografia. Tudo é compensado pela sacada central do filme –  simples, poética e forte. Alguém preso num instante, num único instante, sem volta, o que vale tanto para os momentos que se passaram como para aqueles que ainda nem chegaram. Nas entrelinhas, o curta acorda o espectador para a vida e firma seus pés no chão: não se pode controlar os acontecimentos, a vida, os passos tomados. Não se pode voltar atrás. Se é que há um Deus, o poder está com Ele, não com você, nem comigo. Se não há, não há controle algum, o que dá ainda mais frio na barriga, uma sensação maluca de estarmos em uma montanha-russa desgovernada. Loop é pulsante e faz a gente pulsar junto. Um daqueles curtas que valem cada segundo, ainda que não durante, mas depois, quando nos damos conta da força que tem. E então? Tá esperando o quê? O tempo corre.

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