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Homenagem à Cinemateca Brasileira

Redação TelaBr - 24.04.2013

Emocionante texto de Lygia Fagundes Telles sobre o templo do Cinema Nacional:

CINEMATECA BRASILEIRA

Lygia Fagundes Telles

Paulo Emilio Salles Gomes, um jovem e importante intelectual paulista, comunista e ateu, fugindo da prisão que o ameaçava o presidente e ditador Getulio Vargas, viajou para Paris onde morou alguns anos.

Apaixonado por cinema, lá trabalhou um longo tempo na Cinemateca Francesa e aprendeu tudo o que queria saber sobre o cinema e seus mistérios mais profundos. Aprendeu assim como funciona um museu vivo de cinema no primeiro mundo. Correspondeu-se então com os seus amigos, os intelectuais brasileiros Francisco de Almeida Salles, Alex Viany, Antonio Candido, Thomaz Farkas, Gustavo Dahl e com o jovem Rudá de Andrade, sim, comunicou-se com todos no sentido de fazer também no Brasil uma instituição nos mesmos moldes franceses, ou seja, um museu vivo para a defesa do cinema internacional e principalmente, do cinema brasileiro. Defendia com maior empenho o cinema do Brasil porque preferia um medíocre filme brasileiro a um brilhante filme estrangeiro.

 

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Conheci a Cinemateca Brasileira quando era ainda uma humilde casa no nosso Parque Ibirapuera, sim, uma modestíssima casa com dois ou três cômodos e mais o banheiro. Lá já estavam o Paulo Emilio, Rudá de Andrade e o caseiro. Eu me lembro bem, na porta da casa havia um cachorro sem raça a se coçar mas vigilante. Fiquei tão abatida e conversei com Paulo Emilio, meu Deus! tudo tão pobre e esses modestos rolos de filmes nas latas e os cartazes lá nas frágeis prateleiras… O Paulo Emilio concordou: não temos dinheiro nem para coar um café! Mas vamos lutar, vai ser uma luta longa e dura, mas o nosso pequeno grupo não vai desistir; temos vocação e vocação é paixão. Estamos apaixonados, sim, mas precisamos urgentemente de dinheiro e esse só o governo pode nos dar. Você conhece o nosso governador Jânio Quadros? Contei-lhe então que tínhamos estudado na mesma Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele tinha se diplomado antes e esse era o único laço que mantinha com o nosso governador. Paulo Emilio ficou pensativo: você vai visitá-lo, ofereça a ele um de seus livros, fale da nossa cinemateca de modelo francês e peça algum dinheiro que nos ajude a sair dessa situação.

Lá fui com o meu livro e com a minha esperança. O governador me recebeu e contei-lhe então a situação daquela que seria mais tarde a bela Cinemateca Brasileira: não tínhamos dinheiro nem sequer para coar café! Ele chamou seu secretário, sim, claro que ia colaborar, decidiu bem humorado. Pediu a esse secretário que providenciasse um cheque de vinte e cinco mil cruzeiros para auxiliar esse futuro museu. Chamou o bedel: sirva aqui para a doutora um café, porque onde ela trabalha não há dinheiro nem para esse cafezinho…

 

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Lembranças antigas. Mas foi esse o duro e desesperado começo dessa casa que depois de uma luta tão heróica, foi subindo, crescendo, até chegar ao belíssimo estado atual.

 

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Vieram os Conselheiros. Os amigos. Aprendi que o filme, assim como um ser vivo, precisa de um clima especial para não perecer e assim lá nessa nossa bela Cinemateca Brasileira estão guardados e preservados rolos e rolos de grandes filmes nacionais e estrangeiros. Livros. Cartazes de filmes.. Cartas.

Quando temos as reuniões mensais do Conselho, gosto de ver os bravos bombeiros fardados fiscalizando o prédio e o vasto jardim.

Toda a vida e obra de Paulo Emilio e de outros dos nossos maiores cineastas e críticos estão naquelas latas.

Hoje, depois de tanta luta, aí está essa bela Cinemateca Brasileira! Vamos lutar, sim, para que mesmo após a morte dos seus bravos fundadores, ela prossiga viva, cumprindo o seu glorioso destino: o de ser o único museu vivo de Cinema Nacional.

 

Fevereiro de 2013

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