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Santa, mulher, mãe e humana: Documentário ‘Marias’ fala sobre o feminino ao retratar a devoção a Nossa Senhora na América Latina

Redação TelaBr - 16.11.2016

“Eu sou filha de mãe judia e pai católico. Fui estudante de colégio católico. Isso mais me afastou da religião do que aproximou”, conta Joana Mariani, diretora do documentário “Marias – a fé no feminino”. O filme foi uma forma de conciliar sua racionalidade com a fé, ao registrar as celebrações da Virgem Maria no Brasil, Cuba, México, Peru e Nicarágua.

Rodado entre 2009 e 2013, a produção apresenta diversos devotos que falam sobre Maria e o que a santa representa para elas. A obra nem sempre explora o viés religioso, como é o caso de Maria Helena Chartuni, responsável pela restauração da imagem da santa que ficava na Basílica de Aparecida (SP) quando ela sofreu um atentado em 1978. “Maria foi a primeira feminista do mundo. Você imagina que com 15, 16 anos, ela recebe a notícia de que ela vai engravidar, solteira, em uma sociedade em que as mulheres eram apedrejadas. Precisa ter muita coragem”, diz a artista em depoimento ao filme.

“Eu sempre tive muita fé. O que eu não tinha era a necessidade de um intermediário. Sempre entendi a fé como algo mais amplo, como uma energia. O documentário me ajudou a entender a devoção e enxergar Maria como igual. Ela é mulher, mãe e representa o amor incondicional”, define a diretora.

Em entrevista ao TELA BRASIL, Joana Mariani conta sobre as diferenças e semelhanças culturais em trono do culto a Nossa Senhora na América Latina registradas no documentário, que tem estreia em circuito comercial prevista para amanhã (17).

O filme oferece uma imagem progressista de Maria, associando-a até com o feminismo. Como foi a reação da Igreja Católica ao filme?

Agora com o lançamento do filme, eu tenho algum tipo de relação com igreja. Eu não me propus a fazer um filme religioso. O que me surpreendeu é que o filme foi muito bem recebido pela igreja, apesar do filme não poupar críticas. Como é o caso da freira que largou o hábito pra se juntar a resistência à ditadura de Franco na Espanha. Maria Lopez, que é jornalista e vive na Nicarágua, questiona duramente o maior dogma do catolicismo. Ela acha uma aberração que a Igreja Católica defenda que Maria e José sejam uma inspiração de sagrada família. De acordo com ela, como é possível uma família sem relações sexuais? Que proposta de mãe é essa que não sabe quem concebeu o filho? Mas mesmo assim, o “Marias” foi exibido em um evento promovido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro, com o apoio da comunicação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). A projeção aconteceu no Pão de Açúcar, usando o Cristo Redentor como tela!

Se você não tinha a pretensão de fazer um filme religioso, qual foi o ponto de partida do documentário?

A ideia original partiu de uma amiga fotógrafa Arlete Soares, que tinha esse projeto de livro chamado “Padroeiras da América Latina”. Ela me contou que todas as padroeiras de países latino-americanos eram Nossas Senhoras e que ia fotografar as festas. A primeira vista, pode parecer um assunto exclusivamente católico. Mas logo percebi que não era um filme só sobre fé, era um filme sobre o feminino. É uma identificação pela essência dessas mulheres que são mães e atendem nossos pedidos. Outro aspecto é o de resistência cultural, na forma do sincretismo religioso. O culto a Nossa Senhora, por exemplo, remete a crenças muito mais antigas, como é o caso da Virgem de Guadalupe, no México. Os espanhóis faziam os templos sobre as terras sagradas, logo Tonantzi, a mãe dos deuses na cultura indígena, se transformou na virgem católica de pele morena. Esse sincretismo também é percebido no Brasil, com a figura de Iemanjá.

Fé e reflexão parecem não combinar. Como você conseguiu unir as duas coisas no documentário?

Você não dirige um documentário, ele te dirige. Mas eu gostei de encontrar gente que tinha essa dualidade. Uma fé latente e um lado racional. Não uma fé sem explicação. Ao mesmo tempo, se permitindo vivenciar esse sentimento puro. Vou falar uma bobeira. Durante a exibição que iríamos fazer no Cristo Redentor, o local estava coberto por uma neblina que não conseguíamos ver um palmo a frente. Um dos padres rezou, pedindo por uma intervenção. Na hora marcada, o céu ficou limpo. Racionalmente, eu não acredito. Mas eu vivi aquilo e foi um momento lindo. É como disse um dos entrevistados, o músico cubano José Maria e Silvia define: a crença implica, precisa da dúvida.

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