Texto - Sala de Roteiro

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SUSPENSE


Qualquer filme, seja um drama, um policial, uma comédia romântica, um horror, um musical, um filme de guerra, de ação, de ficção científica, de arte, de mistério... enfim, qualquer filme, de qualquer gênero, precisa ter suspense para prender a atenção do espectador. Trocando em miúdos: não podemos dar toda a informação de uma vez só. É importante manter na cabeça de quem assiste ao nosso filme algumas perguntas básicas, como: “Espera, de onde eles se conhecem?”, “E agora, o que vai acontecer?”, “Por que ela vai entrar ali?”. Ou algumas afirmações: “Não, não liga esse carro que tem uma bomba!”, “Sai, sai daí, que o assassino está atrás de você!”.

Esse fenômeno se parece muito com o que acontece com as crianças diante de um teatro de marionetes: ao perceber que o vilão se aproxima da princesa e que a princesa não vê o vilão, a molecada logo se inquieta, se angustia e começa a gritar avisando a princesa sobre a chegada do malfeitor. Numa sala de cinema, é comum escutar crianças perguntando, no meio do desenho animado: “E agora, mãe, o que vai acontecer?”

É natural da nossa mente tentar solucionar problemas, buscar respostas, querer fechar alguma informação que foi aberta. Por isso, na hora de escrever nosso roteiro, precisamos saber que, antes de qualquer coisa, estamos manipulando esse sentimento.

É muito importante estabelecer a ordem de entrada de cada cena no filme. Em Crepúsculo dos deuses, o roteirista e diretor Billy Wilder começa sua narrativa pelo final, mostrando a chegada da polícia a uma mansão. Na piscina, está o corpo de um jovem boiando. Um narrador informa que esse personagem (um jovem roteirista, aliás) foi assassinado. Logo depois de um dos planos mais famosos da história do cinema (o corpo do jovem roteirista morto, visto de dentro da piscina), voltamos seis meses no tempo e começamos a acompanhar a história que gerou o assassinato.

Sabemos que, no final do filme, o rapaz estará morto. Mas precisamos saber o motivo. E ficamos presos ao filme durante seus 110 minutos. O que podemos concluir com isso é que, na verdade, o que nos amarra a um filme não é a surpresa final, mas o suspense, a espera ansiosa pela próxima peça que completará o quebra-cabeça de informações e dará sentido à narrativa.


Texto: Henry Grazinoli