Texto - Sala de Roteiro

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O PODER DA CRIAÇÃO


O roteirista de um filme de ficção tem controle total sobre o universo que cria. Tem controle total sobre os caminhos da trama, sobre o destino de cada personagem. Sobre o começo, o meio e o fim da história. Ou seja: o roteirista de ficção é uma espécie de deus.

É claro que o ideal, ao escrever um roteiro de ficção, é criar personagens tão profundos que sejam capazes de se libertar da tirania do roteirista e fazer suas próprias escolhas, dizer suas próprias palavras, seguir seu próprio caminho. Mas, mesmo quando isso acontece, o roteirista continua por cima, mandachuva supremo. Suas palavras, impressas no papel, ganharão vida.

Escrever roteiro de documentário é outra coisa. Nesse caso, é quase impossível assumir o controle da narrativa e dos personagens do filme antes que ele seja filmado. Isso acontece porque, quando faz um documentário, o roteirista divide o posto de deus com o mundo real, com a natureza dos personagens.

Geralmente, o roteiro de um doc é construído depois das gravações. O profissional do roteiro é chamado para assistir a todo o material gravado e, a partir dele, montar uma estrutura narrativa para o filme.

Quando um realizador sai, com uma câmera na mão, para fazer um doc, ele nunca tem certeza absoluta do que encontrará pela frente. Seus entrevistados não são atores profissionais, capazes de repetir a fala até a tomada ideal. Seus cenários não são construídos. Sua matéria-prima é a realidade, com todos os imprevistos que ela certamente vai gerar.

Antes de o documentário ser filmado, o roteirista pode contribuir com a busca por um tema, com a definição do conceito, com o tom que talvez prevaleça na abordagem do assunto, com a escolha de entrevistados, com a elaboração das perguntas. Mas não é capaz de controlar o que cada personagem dirá ou sentirá. Não é capaz de controlar o que o acaso trará de bom ou ruim para a frente da câmera.

Ao escrever um documentário, o roteirista é um simples mortal, tentando extrair, como qualquer pessoa, algum sentido da nossa realidade tão complicada.


Texto: Henry Grazinoli
Consultoria de Conteúdo: Luiz Bolognesi