Texto - Sala de Roteiro

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UMA CENA É UMA CENA


“Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.” Essa frase, celebrizada pelo Gerson, ex-jogador de futebol, embora seja uma clássica filosofia de botequim, é excelente pra dar o tom deste texto. Vamos ver um exemplo:

1 – INT. BOTEQUIM – NOITE

GERSON, homem careca, de sessenta e poucos anos de idade, encostado no balcão do bar, toma um grande gole de conhaque. Coloca o copo sobre o balcão. Olha pro alto.

GERSON
As coisas. Ah, o grande mistério das coisas.

Gerson sacode a cabeça, pisca os olhos, como se estivesse acordando de um transe. Tira uma nota de dez reais do bolso. Coloca a nota no balcão, debaixo do copo.

Gerson caminha em direção à porta do bar.

CORTA PARA

2 - EXT. PONTE RIO–NITERÓI – NOITE

Gerson caminha pela ponte Rio–Niterói, cambaleante.

Gerson para de caminhar. Olha para o céu e percebe a lua cheia.

Desequilibrado, Gerson olha para o mar.

Gerson vê o reflexo da lua na água.

Gerson se afasta da beira da ponte. Começa a pular, com os braços erguidos.

GERSON
A-há! Descobri! Descobri o segredo! Uma coisa é uma coisa! Outra coisa é outra coisa! Uma coisa é uma coisa!

Outra coisa é outra coisa!

Gerson pula de alegria, gargalhando. Alguns carros passam na autopista da ponte, em alta velocidade.

FIM

É SIMPLES ASSIM: QUANDO MUDAMOS DE LUGAR OU DE TEMPO, MUDAMOS DE CENA

Gerson saiu do bar. Cortamos para a próxima cena, em que ele caminha pela ponte. Se mostrássemos Gerson chegando em casa, a próxima cena seria:

INT. SALA DA CASA DE GERSON – NOITE

Gerson entra correndo e vai em direção a uma mesinha, no canto da sala, onde descansa um antigo telefone.

Gerson pega uma caneta e um bloco de anotações. Escreve.

FIM


Texto: Henry Grazinoli