Texto - Sala de Roteiro

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O PERSONAGEM AO LADO


Ninguém cria boas histórias ou bons personagens do nada. A realidade é uma grande fonte de inspiração, com sua galeria de tipos prontos pra virar cinema: o homem de olhar triste, assobiando uma canção, sentado ao nosso lado, no banco de um ônibus; a senhora sozinha, bebendo Campari numa mesa de bar, lendo um jornal de ontem; a mãe, o pai, os irmãos, todos com suas loucuras, suas manias e suas virtudes. O lance é olhar, ver o que cada pessoa tem de interessante e misturar tudo, em um personagem ou em vários.

Na prática, montar um personagem de ficção funciona assim: é importante ter um amplo domínio do universo do personagem, antes de começar a desenvolver a história. Isso acontece porque cada ação e cada fala tem uma lógica que se relaciona com sua origem (passado) e seu objetivo (futuro). Todo personagem tem um passado. Todo personagem tem um futuro.

É muito importante compreender essa multidimensionalidade, entender que a narrativa é um fragmento, um pedaço da vida desse personagem. E que, quando aparecem num roteiro, os personagens chegam de algum lugar e vão para algum lugar.

É como conhecer alguém por aí, na vida real. Conhecemos a pessoa, num determinado momento e, conforme conversamos, surgem informações sobre seu passado: “Ah, então, quer dizer que você terminou seu namoro ontem?” E sobre seu futuro: “Você pretende namorar de novo, em breve?” Por isso, é legal, antes de escrever o roteiro, traçar um perfil de cada personagem importante na história. Conhecer seu passado. Conhecer a mãe, o pai, os irmãos e os melhores amigos do personagem. Também detalhar o futuro, para onde o personagem vai, sozinho ou acompanhado, na história e depois da história.

Claro que não é necessário colocar no filme todas as informações sobre a vida do personagem. O público nem sempre precisa saber. Mas você, amigo deus, precisa ser onisciente. Precisa saber tudo. O domínio dos personagens, sem dúvida, dá mais verossimilhança e mais profundidade a um filme. Afinal, evita um olhar maniqueísta, caricato, estereotipado.

Na vida real, é muito difícil rotular as pessoas que conhecemos bem. Isso acontece porque o ser humano é muito complexo e, geralmente, não cabe numa simples classificação de “bom” ou “mal”. E o ser humano é a grande matéria-prima do trabalho de um roteirista. Antes de usar referências, antes de usar outros filmes como base, antes de tentar compreender o universo todo num roteiro, é preciso olhar para o lado e descobrir a maravilha e a complexidade do que nos cerca.


Texto: Henry Grazinoli