Texto - Sala de Roteiro

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NÃO ENGANAR A SI MESMO


Há uma coisa fundamental na qual precisamos pensar quando decidimos escrever um roteiro: “Afinal, o que eu quero dizer com essa história?” Se a resposta for “Ah, só quero que ela seja divertida”, temos uma primeira justificativa, mas ela não é o bastante para garantir um elemento importante, presente em todos os bons filmes aos quais assistimos: a verdade.

Fazer qualquer obra de arte que se tornará pública nos imbui de uma grande responsabilidade. Afinal, precisamos saber do que estamos falando, precisamos estar muito certos da mensagem que estamos passando adiante.

Certa vez, um aluno de uma oficina de roteiro apresentou a história de um homem que assassinava idosos. Depois de vários assassinatos brutais de velhinhos, o roteiro terminava com o homem no divã de um analista, sorrindo, justificando as mortes, dizendo que seu problema psicológico estava solucionado e que ele nunca mais mataria nenhum idoso. O personagem do assassino não foi punido. Nem demonstrava qualquer arrependimento.

O professor da oficina, com ar preocupado, perguntou ao rapaz: “Você realmente acredita no poder terapêutico de matar uma dúzia de idosos?” O rapaz ficou inquieto, ajeitou-se na cadeira e respondeu: “Claro que não! Claro que não! Este filme é uma denúncia! Eu quero mostrar que esse tipo de comportamento é um absurdo!” E o professor foi muito sincero: “Pois é, mas seu roteiro está dizendo o contrário.”

Não concluímos, desse exemplo, que precisamos ser moralistas ao escrever nossos filmes. Que todo assassino tem que ser punido. Que todo final tem que ser feliz. Devemos, sim, pensar sobre o que estamos dizendo, para que nosso discurso combine com nossa obra. Para que nossa arte reflita nossa verdade. Precisamos dominar o tema que escolhemos tratar, seja por vivê-lo em nosso cotidiano, seja por pesquisá-lo profundamente.

Numa entrevista para um documentário, um grande ator disse uma frase simples, mas muito precisa: “O que é verdade é verdade. O que é mentira é mentira. E o público não gosta de ser enganado”. Não enganar o público significa, para o artista, não enganar a si mesmo.


Texto: Henry Grazinoli