Texto - Sala de Montagem

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ESCULPIR O FILME


Geralmente, o montador começa a trabalhar depois da filmagem. Isso acontece porque ele precisa do material filmado para desempenhar sua função, claro. Mas existem outros motivos para que ele não participe do filme desde o começo da produção.

Dizem que o montador, por exemplo, não deve saber o trabalho que deu para filmar um plano. Desse modo, ele não tem pena de cortar cenas inteiras, caso não estejam contribuindo com a narrativa do filme. Outros montadores sequer lêem o roteiro. Conversam com o diretor, assistem ao material e partem para montar, mantendo um olhar fresco e distante sobre a história.

Lógico que cada caso é um caso – há montadores que lêem roteiro e até alguns que acompanham as filmagens. O importante é sempre lembrar que o montador pode representar um olhar com distanciamento e criatividade, e que isso pode acrescentar muito ao filme.

O material que chega às mãos do montador, no início de seu trabalho, vem todo bagunçado (os filmes não são filmados na ordem que a história é contada no roteiro). Além disso, é comum existirem várias opções filmadas de um mesmo plano: algumas que deram certo, outras que deram errado.

A partir daqui, o montador, algumas vezes acompanhado do diretor, algumas vezes sozinho, começa a escolher o que há de melhor, separar e colocar tudo na ordem, para construir a narrativa. Para selecionar os melhores planos, o montador costuma levar em conta: enquadramento mais bem feito, tempo mais apropriado, ritmo e atuação mais convincentes dos atores. É como fazer uma escultura numa pedra de mármore: é preciso tirar o excesso de pedra, senão a escultura nunca aparece.

Depois de selecionado o melhor material e retirado o excesso, o montador costuma fazer o que chama de “corte largo”, contando a história num filme longo, ainda com algumas gordurinhas. O corte largo dá ao montador uma visão periférica do filme, abrindo seus horizontes para novos cortes e novas maneiras de contar a história. Depois de dezenas de alterações, esse corte largo vai diminuindo, diminuindo, até gerar o corte final do filme, sempre sob a supervisão do diretor.

O processo de montagem está longe de ser estanque ou de ter uma fórmula predeterminada. Hoje em dia, com a possibilidade de montar um filme em incríveis programas de computador, é muito mais simples fazer e desfazer, inventar uma narrativa e desinventar, colocar planos, tirar planos e criar efeitos.

Enfim, o computador ajuda muito. Mas não faz nada sozinho. Uma boa montagem ainda depende da sensibilidade, da boa formação e do olhar humano, ritmado e criativo do montador.


Texto: Henry Grazinoli
Consultoria de conteúdo: Paulo Sacramento