Texto - Sala de Montagem

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MAIS QUE MANIPULAR IMAGENS, MANIPULAR O TEMPO


Existem algumas convenções, em montagem. Cortar na ação é a mais primária, a mais clássica e a mais utilizada. É aquela velha história do cara que, num plano aberto, gira a tampinha de uma garrafa. No movimento que faz para girar a tampa, é possível cortar para um plano mais fechado no personagem ou para um plano superfechado, mostrando apenas sua mão, que ainda gira a tampa da garrafa.

Outro corte clássico é aquele em que um homem abre uma porta e entra em casa. Imediatamente, vamos para outro plano, mostrando o homem dentro de casa, fechando a porta.

Há, ainda, a famosa técnica do diálogo, que prega o seguinte: antes de tudo, é preciso mostrar os dois personagens que conversam com um plano mais aberto – dessa forma, o montador estabelece o espaço e a relação entre esses personagens. Depois, conforme a conversa se desenvolve, a imagem vai pra quem está falando, em plano mais fechado, e, de vez em quando, mostra uma reação de quem está ouvindo. É o consagrado plano e contra plano.

Ah, e existe, ainda, o ponto de vista, quando o personagem olha pra alguma coisa e, de cara, vemos o que o personagem vê.

Bom, não dá pra negar que todos esses princípios funcionam. Por isso mesmo, eles são usados e abusados em produções audiovisuais de rápida realização, como programas de TV. Para o montador de cinema, é fundamental conhecer esses princípios. Tão fundamental quanto saber que eles não são a única maneira de cortar. Tão fundamental quanto criar sobre eles. Tão fundamental quanto usá-los de maneira original.

Na verdade, o montador sempre tem um desafio: encontrar boas elipses. Uma elipse é um salto no tempo, um corte no tempo, a passagem de uma ação para outra deixando de mostrar um monte de coisas que intermediaram essas ações.

Normalmente, num bate-papo, quando contamos alguma história real aos nossos amigos, não nos prendemos a detalhes que podem alongá-la e deixá-la cansativa. Escolhemos, rapidamente, o que é fundamental para a compreensão do fato, o que não pode faltar para garantir o suspense, a graça ou o drama da situação.

Se a história é sobre a garota que você conheceu na saída de uma sapataria, provavelmente não será muito interessante contar sobre cada sapato que você experimentou, sobre a postura do vendedor, sobre sua ida ao caixa para pagar a conta, sobre a incrível sola do tênis que você escolheu. É mais provável que você conte: “Aí, enquanto experimentava o tênis, eu vi a menina ali na calçada. Muito, muito linda, galera!! Eu saí da sapataria, parei do lado dela assim, como quem não quer nada, e comecei a puxar conversa...”

Esse é um caso típico de elipse. Uma elipse que nós usamos o tempo todo, quando contamos alguma história. E contar uma história, no cinema, também é escolher, também é decidir o que mostrar e o que ocultar. Por isso, o montador trabalha muito com as elipses.

A escolha dos melhores momentos para contar o filme é o que diferencia um montador criativo de um simples técnico, que só repete as convenções. Um bom montador precisa entender que seu ofício, mais que manipular imagens, é manipular o tempo.


Texto: Henry Grazinoli
Consultoria de conteúdo: Paulo Sacramento