Texto - Sala de Som e Trilha Sonora

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Trilha Sonora: BLÁBLÁBLÁ


O som é muito importante para ambientar, passar a sensação de realidade, numa cena. Isso é verdade. Mas ele também trabalha com o abstrato, com o simbólico. É capaz de criar metáforas muito interessantes para o nosso filme.

Um exemplo legal de uso criativo do áudio é o desenho animado Peanuts, também conhecido como Snoopy. Ele trata do universo infantil, tendo como protagonistas Charlie Brown e seu fiel escudeiro, o cão Snoopy.

Nessa animação, é interessante perceber que os adultos são sempre mostrados da cintura para baixo. E, quando falam com as crianças, emitem o som bláblábláblábláblá. Os personagens adultos nunca pronunciam uma palavra inteligível. Apenas dizem blábláblábláblá.

Ora, podemos fazer uma série de leituras simbólicas dessa opção de áudio. A primeira delas, e a mais simples, é a de que estamos tratando do universo das crianças e, por isso, as palavras dos adultos não têm a menor importância. Mas, certamente, podemos ir mais longe e lembrar um pouco da nossa própria infância: quantas vezes, ao levarmos uma bronca, não olhávamos para o rosto daquele adulto meio patético e tínhamos uma incontrolável vontade de chorar (às vezes, de rir)? Na prática, não ouvíamos a bronca, ficávamos segurando o pranto (ou a gargalhada) para não piorar as coisas, pensando no absurdo da situação e ouvindo apenas um bláblábláblábláblá.

Bom, passando de Peanuts para J. L. Godard, no filme Bande `a part, o cineasta francês trabalha o som de maneira bastante criativa. Numa das cenas, vemos três amigos num bar, conversando uma porção de banalidades. Em determinado momento, os três percebem que só estão falando besteira, fazendo um discurso vazio. E um dos personagens propõe: “Vamos fazer um minuto de silencio?”

Pois é, eles fazem um minuto de silêncio. Mas o minuto de silêncio, nesse filme, representa o corte completo do som: nada de ruídos do bar. Nada de ruídos da rua. Nada de ruído algum. O cinema fica, durante um minuto, mergulhado num profundo silêncio. Com isso, Godard propõe uma inteligente brincadeira com a linguagem do cinema e mostra aos espectadores o que representa, numa sociedade tão barulhenta, ficar um minuto em silêncio completo.

Portanto, se alguém disser que trabalhar com som é simplesmente se preocupar em reproduzir a realidade, você deve ouvir apenas um bláblábláblábláblá. E deixar sua imaginação falar mais alto.


Texto: Henry Grazinoli
Consultoria de conteúdo: Equipe Eletrocooperativa