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Editorial

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Os caminhos do cinema: das estradas à internet

Com a banda larga, o YouTube, os supercelulares e todas as novidades que as mídias digitais apresentam a cada segundo, a democratização da informação - e da formação – começa a se tornar possível. E, se antes o ensino à distância era restrito a alguns poucos (e caros) cursos de inglês ou MBA, hoje a Internet é muito mais do que uma cidade universitária ou uma biblioteca virtual.

Mas a verdadeira revolução que estamos vivendo não é a nova cara do computador, nem o gigantesco volume de informação disponível na Internet. A mudança começa com a interatividade, com o convite feito ao internauta para que ele contribua com o conteúdo apresentado e receba feedback de sua colaboração.

Passando essa etapa, chegamos ao momento atual, com os meios de produção nas mãos dos usuários – principalmente dos jovens curiosos, para os quais o computador é muito mais um “videogame multimídia potente” e do que uma ferramenta de trabalho. Hoje, com um conhecimento ínfimo de tecnologia caseira, todos podem fazer e colocar na Internet seus textos, vídeos, músicas e outras formas de expressão.

Há 10 anos, quando os computadores e a Internet (lentíssimos) começavam a chegar nas casas dos mais abastados, nós rodamos de carro por todo o Brasil, exibindo filmes nacionais em praças públicas, igrejas e escolas. A viagem durou sete meses, percorremos do Sul da Bahia ao interior da Amazônia. Como cineastas e também como cidadãos, queríamos fazer alguma diferença nesse País em que 86% dos municípios não têm sala de cinema.

Essa inesquecível aventura resultou em um documentário chamado “Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil”. E o sonho que era despretensioso, mambembe, há quatro anos se tornou projeto grande, batizado de Cine Tela Brasil. Com o patrocínio da CCR, por meio do programa CCR - Cultura Nas Estradas e da Fundação Telefônica, hoje são dois caminhões que levam salas itinerantes de cinema e filmes nacionais para os brasileiros. O Cine Tela Brasil já impactou 420 mil brasileiros, em 2.147 sessões de cinema grátis em 180 cidades. As salas do Cine Tela Brasil têm em média 87% de ocupação, a maior taxa do Brasil.

Quando tudo parecia estabelecido e dando muito certo, começamos a pensar que a verdadeira revolução seria ensinar às comunidades de baixa renda a produzir, a contar ou inventar suas próprias histórias. Criamos as Oficinas Itinerantes de Vídeo. Um mês antes de a sala de cinema chegar à cidade, um time de sócio-educadores explica cada etapa da produção de um curta-metragem aos jovens, que aprendem e produzem um filme. As Oficinas são tão bem sucedidas e os realizadores de baixa renda têm tanto a dizer que, em pouco menos de dois anos, já vimos curtas selecionados para importantes festivais de cinema no país.

Novamente, sentimos necessidade de ampliar as dimensões do Cine Tela Brasil. A Internet sempre nos pareceu um importante meio para a troca de impressões e de expressões, para ensinar e para aprender. Assistimos ao nascimento dos blogs, dos fotologs, e depois dos videologs, culminando no fenômeno YouTube. E como a nossa matéria-prima é o som e as imagens em movimento, precisamos esperar um pouco até que as tecnologias evoluíssem e barateassem, desde a captação até a exibição, passando pela transmissão dos dados. Queríamos um portal que tivesse cara de cinema, de um set com todas as etapas do processo de produção de um filme.

O momento chegou. O portal Tela Brasil está no ar, com patrocínio da Fundação Telefônica e do grupo CCR. Os jovens que participaram das Oficinas Itinerantes de Vídeos podem continuar aprendendo, criando e convivendo com o mundo da produção audiovisual que descobriram há pouco. E o portal, como tudo o que “cai na rede”, tem um alcance imensurável, ainda mais se considerarmos o crescimento da participação da classe C entre os internautas. Assim, a formação audiovisual vai até onde o caminhão de cinema ainda não chega.

Pensar no conteúdo de um website com foco no ensino – de qualquer disciplina, da matemática à poesia – não é fácil. Como conquistar a atenção e o tempo dos internautas diante da multiplicidade de opções dentro e fora da rede?

Voltamos para nossa matéria-prima, olhamos para o próprio cinema, em que conteúdo e forma se integram e se complementam para envolver o espectador, trazendo-o para dentro do filme. Daí veio a síntese – nenhuma invenção da roda, mas um bom começo: um site que pretende informar e formar precisa ser atraente visualmente, ter conteúdo relevante e, principalmente, ser interativo. Ensinar e aprender só são possíveis se a via for de mão dupla.

No portal Tela Brasil, o internauta pode participar das Oficinas Virtuais, nas quais percorre todo o processo de produção de um filme até chegar à sala de cinema. Oficinas de roteiro, produção, direção, fotografia, trilha sonora, montagem, pós-produção e até de exibição fazem parte do conteúdo disponível gratuitamente ao visitante do portal. Cada oficina também é composta por exercícios virtuais. O portal traz ainda muita informação: notícias, inscrições para festivais e cursos, dicas de lançamentos no cinema, filmografias e bibliografias.

Nossa expectativa é que os computadores trabalhem juntos com os caminhões, nos quais viajam as salas itinerantes de cinema. E que a Internet aumente ainda mais o alcance do projeto Cine Tela Brasil – e de todos os outros projetos com essa mesma essência –, amplificando a voz dos jovens de baixa renda e de todos aqueles que desejam aprender uma nova maneira de contar e mostrar suas histórias.

Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi